Quantos tesouros estão presentes no cotidiano de sua cidade e passam despercebidos de muitos moradores e visitantes? Algumas jóias que já receberam “status” de atrativos, em algumas cidades, integram o “tour turístico” e são registradas em muitas fotos, cartões-postais, diários de viagem, em livros, revistas, jornais e acabam tornando-se símbolos dos lugares. É assim com a Avenida Paulista em São Paulo, Copacabana no Rio de Janeiro, a arte das cidades barrocas mineiras; o Mercado Ver o Peso em Belém; Boa Viagem em Recife, enfim, a lista é imensa e cada destino tem seus patrimônios históricos e culturais para serem enaltecidos e amados.
Tem um patrimônio especial que pulsa na vida de todas as cidades. São as pessoas que construíram e continuam a registrar sua presença ao longo da trajetória de desenvolvimento dos muitos municípios. São personagens muitas vezes anônimos e com muita história para contar e que ficam felizes ao encontrar alguém para ouvir e dar importância aos acontecimentos de sua vida e bairro. São agentes de transformação da paisagem urbana que está em constante movimento e que nos ensinam à importância de cada cidadão nessa construção com todas as dificuldades e conquistas que isso representa.
Lembro de uma visita realizada com um grupo de jovens no cemitério Bela Vista, que munidos com um elemento importante que nos impulsiona para o mundo das descobertas – curiosidade – foram andando pelas quadras e aprendendo a história da cidade pelos detalhes arquitetônicos, fotos, datas e sobrenomes das famílias registradas nos túmulos. A conversa com trabalhadores do cemitério e com o munícipe que estava lá cuidando do espaço de sua família foi proveitosa. Espero que os jovens não esqueçam da fala do senhor munícipe do Km 18: “estudem e estudem”.E compreendemos que o cemitério é um patrimônio que reúne muita arte esculpida em anjos, santos, cruzes, imagens e saudades que contam a passagem do tempo, da vida e da morte.
A ausência de incentivo ao conhecimento que ensina e sensibiliza as pessoas para sentirem-se parte da rua, bairro, praça, monumentos e tantos outros elementos da dinâmica urbana, acarreta um distanciamento da história da qual fazemos parte todos os dias. No Etur a Pé desenvolvido pelo Portal Etur e realizado pelos Mobilizadores Etur em suas cidades, estamos criando a oportunidade de aprender compartilhando as riquezas dos patrimônios presentes no cotidiano de nossas cidades. Cada participante é protagonista no roteiro e apresenta sua leitura dos locais mostrando como essa troca de informações favorece o aprendizado coletivo. No final, cada pessoa leva consigo uma bagagem maior do que trouxe.
Participando da vida cultural de Osasco encontrei personagens com os quais aprendi e continuo a aprender. Alguns deles participaram comigo de uma das caminhadas do Etur a Pé. São os cidadãos que movimentam o cotidiano do município com sua arte e encontros que promovem conhecimento e amizades. Temos em “OS” os poemas do Sr. Jonas que reverenciam o Rio Tietê; o Teatro Mágico que está alçando vôos; os vários grupos de teatro que surgiram a partir da Escola de Artes; o talentoso André Vianco - “Stephen King de Osasco” segundo matéria da Revista Trip; os poetas do MAEPO, os professores, atores e diretores de teatro Genivaldo de José e Guina que apresentam espetáculos criativos e envolventes no palco do Municipal; a mistura poética do Grupo Encontro das Águas, a poesia da periferia escrita por jovens que vivem “no limite” e muito mais que ainda não conheço.
E é por ter muitos personagens e histórias para conhecer na minha cidade que acredito na importância da criação de instrumentos para reunir os moradores e visitantes com o objetivo de apresentar os patrimônios com olhar atento para a necessidade de preservá-los com a participação de todos. Se tivermos a comunidade interagindo, quem sabe parede com pinturas históricas como a que existia na Avenida dos Autonomistas não desapareça – um retrato que durante anos observei ao passar a pé ou de ônibus e que certo dia para meu espanto amanheceu pintado. Como diz certa canção da Marisa Monte:
(...) Apagaram tudo
Pintaram tudo de cinza
A palavra no muro
Ficou coberta de tinta
Apagaram tudo
Pintaram tudo de cinza
Só ficou no muro
Tristeza e tinta fresca”
O começo para uma futura geração consciente está na educação do presente, temos que formar cidadãos responsáveis pelo seu lugar. Na sociedade do consumismo há uma tendência para glorificar o moderno, tudo que seja de última geração, não que isso não deva ser valorizado, só que se apenas o novo tiver valor, podemos entrar em um processo perigoso de uma cultura que não cuida do patrimônio. Hoje o moderno prédio ou memorial está brilhando com tinta fresca ou vidros espelhados, daqui a alguns anos estará necessitando de restauração, será que acontecerá a reforma ou ele cairá no descaso do velho e condenado ao abandono acabará por ser demolido?
Milhões de turistas visitam a Itália e a França que investem milhões por ano em restaurações. É fácil deduzir porque França e Itália preservam sua história e cultura, elas reconhecem o grande tesouro existente nelas. Não que o moderno não exista por lá, só que ele não significou a destruição do passado. Ainda acredito que há espaço para o sábio equilíbrio.
A história e cultura de um povo estão enraizadas por laços visíveis às suas cidades, somos reflexos dela e mais do que nunca precisamos analisar se estamos contente com a imagem refletida no espelho. Em Osasco e em toda região metropolitana o Rio Tietê nos convida a olhar suas águas e transformar o cenário que plantamos com a ação dos patrimônios do cotidiano que somos todos nós.