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O Turismo como possibilidade de paz em tempos de guerra

É preciso que os aviões e navios tragam novamente à imaginação das pessoas as imagens do prazer que um deslocamento pode propiciar e que significa chegar a um lugar para encontrar alguém ou algo querido, belo ou delicioso.



O processo de desenvolvimento da humanidade é complexo e difícil. Nossa história é pontilhada de atos e pensamentos positivos ou negativos. Em alguns momentos a história se acelera e em outros momentos os antigos instintos selvagens explodem de forma cada vez mais violenta e envolvem a todos em uma espiral de ódio e destruição.

Em outros momentos, como este que agora vivemos, pode ocorrer a conjunção das duas tendências: uma aceleração das mudanças históricas, no caso provocada pela globalização, e uma radicalização daquilo que o ser humano tem de pior, ou seja, seus instintos primários de destruição.

Os atentados terroristas, as guerras ao redor do planeta (Chechênia, Balcãs, Oriente Médio), instabilidades políticas (Argentina, Venezuela, Colômbia) e aumento da violência urbana em várias cidades representam uma faceta do problema da violência.

A outra faceta se sustenta na indiferença das pessoas, no aumento do individualismo e do cinismo que perpassam as nossa sociedades pós-modernas. Há uma crescente fragmentação do social que se apóia – ou se justifica – no hedonismo patológico, no consumo conspícuo e no fenômeno detectado por vários sociólogos marcado pelo encasulamento (isolamento) do “eu”. Isso na verdade é uma recusa em participar da sociedade como ator, tentando posicionar-se apenas como um espectador cercado pela segurança ilusória, seja real ou virtual. Por detrás das grades, cercas elétricas, seguranças armados, carros blindados, câmeras de vigilância e sistemas informatizados pensamos construir um bolsão de proteção que pode nos isolar do caos e dos excluídos.

Pode, até certo ponto, mas as convulsões históricas provam que em caso de convulsão social generalizada essas “fortalezas” são tão frágeis como as antigas cidades medievais cercadas pelos bárbaros, ou como as pessoas em um restaurante onde de repente entram os bandidos armados ou um terrorista explode uma bomba. O problema é que a ignorância, a miséria, os ódios étnicos e os preconceitos seculares (ou milenares) alimentam de forma doentia esses tumores malignos sociais.

Daí surgem os discursos racistas, sectários ou elitistas. Eles se nutrem da intolerância e da estupidez e nascem dos nossos instintos violentos, tão arcaicos como os instintos positivos de sobrevivência e de pulsão sexual. Hoje esses discursos assumem a forma de anti-islamismo, anti-americanismo, anti-sionismo, anti-migrantes, anti-capitalismo, anti-religioso etc. Há um grande paradoxo e contradição nesses discursos “contra” e eles são a marca de nosso tempo.

Estamos em um período da história onde não há uma fórmula econômica única, um sistema filosófico ou político global ou uma ciência a prova de erros – e muito menos uma religião universal – que permita tudo resolver ou prever o futuro. Vivemos em tempos perigosos e não podemos nos acovardar ou evitar as decisões mais trabalhosas que passam pela discussão aberta, sem dogmas, entre pessoas e povos; fortalecimento da democracia; consciência da injustiça social que relega milhões de pessoas à miséria; combate aos fanatismos políticos ou religiosos; e a necessidade de encarar a vida como o mais alto valor que foi oferecido ao ser humano e que, portanto, deve ser preservado e garantido a todas as pessoas.

O turismo pode ser um dos instrumentos que viabilize a paz e a convivência frutífera entre homens e mulheres de todo o planeta. As históricas imagens dos aviões militares despejando bombas ou mísseis sobre as cidades ou dos jatos comerciais explodindo contra as torres do Wolrd Trade Center representam a orgia destrutiva da guerra, simbolizam a morte. É preciso que os aviões e navios tragam novamente à imaginação das pessoas as imagens do prazer que um deslocamento pode propiciar e que significa chegar a um lugar para encontrar alguém ou algo querido, belo ou delicioso.
 
Temos que valorizar o hedonismo sadio, o consumo responsável e a vivência social. É preciso que as religiões reneguem sua hipocrisia e seu ódio e se voltem às fontes dos textos sagrados onde acima de tudo existe a celebração da vida.
 
É preciso que entendamos a mensagem científica da decodificação do genoma que mostrou que toda a humanidade é literalmente igual, desde as moléculas mais básicas de sua existência e que as diversas raças são contingências sem importância, enfim a ciência mostrou as bases da estupidez do racismo.
 
É preciso que a esperança deixe de ser uma utopia ingênua ou uma alienação tola e se transforme em certeza tempos mais viáveis graças aos nossos esforços. Hannah Arendt, uma filósofa judia contemporânea, escreveu um magnífico livro intitulado “Homens em tempos difíceis”. Ela soube mostrar como a transcendência humana supera as piores circunstâncias da história pessoal ou social e estabelece novos valores relacionados com a vida, com a paz e com a alegria de sermos seres humanos.

Que o turismo possa ajudar e se beneficiar desses sentimentos, especialmente nos momentos em que as sombras do crepúsculo de um tempo que se acaba ainda não permitem ver as luzes e cores das nova alvoradas.

 
 

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