A visão tradicional de que o turismo é uma atividade a ser empreendida na ausência de outras alternativas econômicas, como uma espécie de prêmio de consolação às regiões mais exóticas do planeta, não poderia estar mais distante da realidade.
Em um país como o Brasil, o turismo constitui um dos segmentos essenciais de uma estratégia bem-sucedida de desenvolvimento. O turismo bem planejado pode produzir diversos efeitos positivos sobre a economia.
Em primeiro lugar, pelo potencial de criação de empregos e renda, o que é particularmente importante para as regiões mais pobres do país. Em segundo lugar pelo benefício ao balanço de pagamentos, ao gerar ingresso de divisas trazidas pelos turistas estrangeiros e sobretudo investimento externo, principalmente no setor de construção na área de hotéis e parques temáticos e na infra-estrutura de recepção.
Além disso, o turismo é um segmento no qual o esforço de substituição de importações pode ser muito eficaz. O turismo doméstico poderia crescer rapidamente nos próximos anos desde que houvesse investimento em infra-estrutura e capacitação de mão-de-obra. A mudança do regime cambial, aliada a políticas modernizantes no setor, melhorou o saldo da conta viagens internacionais do balanço de pagamentos.
O déficit superior a US$ 4 bilhões em 1998 foi reduzido para US$ 1,5 bilhão em 2001. Lembre-se de que essa conta não reflete de forma precisa a contribuição do setor para o resultado externo, pois esses montantes incluem o saldo de gastos com cartões de crédito que frequentemente não estão associados a viagens, como é o caso das compras por meio de catálogos ou aquisições de livros pela internet. Além disso, não contêm o saldo com o câmbio manual efetuado pelo turista e, mais importante, não incorporam o ingresso de capitais de longo prazo associado com o segmento.
Conforme assinalado pelo presidente da Embratur, Caio Luiz Carvalho, o potencial de benefício sobre as contas externas é ainda maior quando se leva em conta que a OMC (Organização Mundial do Comércio) não coibe políticas públicas de estímulo ao turismo. Em terceiro lugar, o turismo constitui um espaço privilegiado de marketing do país e de seus produtos, fortalecendo aquilo que é genericamente chamado de "Marca Brasil". De frutas a aviões, o Brasil tem um enorme potencial de expansão de suas vendas externas, que pode ser multiplicado pela maior exposição do país no exterior.
Ressalte-se que a agregação de valor no comércio internacional, assim como no plano doméstico, está se deslocando cada vez mais para a esfera do consumo e da distribuição -para o que o desenvolvimento da marca é essencial. Apesar de todas essas vantagens e de uma melhora de desempenho nos últimos anos, o turismo ainda não recebeu a devida atenção no Brasil. Segundo dados da Organização Mundial do Turismo, o Brasil foi o principal destino em 5,3 milhões de chegadas, contra 20,6 milhões do México, 48,2 milhões da Espanha e 75,5 milhões da França.
Nesta última quinta-feira o Palácio do Alvorada, residência oficial do presidente da República, foi aberto à visitação pública. Trata-se de iniciativa positiva em uma cidade com potencial turístico tão inexplorado como Brasília. Atrações semelhantes em capitais como Washington geram enorme fluxo de turismo doméstico e internacional.
As oportunidades com a globalização da economia estão curiosamente associadas à capacidade de construção e valorização da identidade de uma nação. O êxito de alguns países com o turismo residiu precisamente na capacidade de integrá-lo a uma estratégia nacional de desenvolvimento.
Gesner Oliveira, 45, é doutor em economia pela Universidade da Califórnia (Berkeley), professor da FGV-SP, consultor da Tendências e ex-presidente do Cade. Contatos: www.gesneroliveira.com.br E-mail gesner@fgvsp.br