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Feriados e hipocrisia

Acabam de tirar da Economia todas as atividades de lazer e turismo que têm nos finais de semana, férias e feriados seu maior movimento, conseqüentemente a maior movimentação financeira!



Fizemos dois Andantes e estaremos falando neles nos próximos dias. Antes gostaria de comentar sobre carnaval, feriados e hipocrisia. Carnaval é sempre a mesma coisa. Repetem-se com ligeiras mudanças fantasias, sambas-enredo, comentaristas, globeleza. Para acompanhar, os comentários sobre feriados também parece que não mudam! Sempre se fala que "os feriados prejudicam a produção". Será mesmo?

Primeira observação: viva a produção!


Este (pobre) pensamento esquece que a tal produção tem por trás uma coisinha chamada "seres humanos" que não "foram feitos" somente para trabalhar. Existem muitos feriados, "dias parados"? Algumas horas por dia eram necessárias para nos mantermos vivos. Mas saímos das cavernas para a cultura.

Na Idade Média 700 horas anuais nos mantinham felizes mas continuamos a evoluir. Veio a Revolução Industrial e nunca o ser humano trabalhou tanto desde então. Somente no início do século passado é que conseguimos o domingo como descanso semanal. E as conquistas foram acontecendo a partir daí. Hoje o pessoal do "mais produção" resmunga achando que trabalhamos "muito pouco".
 
Provavelmente sejam os mesmos que não precisam dos feriados oficiais para parar de trabalhar. Vejam determinados lugares de Brasília às segundas e sextas-feiras. Os grandes empresários também não gostam dos feriados. Afinal eles trabalham "desde sei-lá-que-idade, dezoito horas por dia, seis dias por semana, nem me lembro das minhas últimas férias" e a falsa ladainha continua por aí.

Segunda observação: falta de planejamento ou "olha patrãozinho(a), estou aqui, viu?" ou ainda "colaboradores, vejam como eu trabalho para manter o emprego de vocês!"


Tive colegas de serviço que invariavelmente "não conseguiam" sair da empresa antes das oito da noite (o expediente se encerrava as seis da tarde). E às vezes chegavam antes das nove da manhã. Ao observar melhor, percebi que o trabalho deste pessoal começava efetivamente lá pelas dez da manhã.

Antes tinha cafezinho, o banheiro (prá que fazer em casa se eu posso ser remunerado até pra isso?), a novela da noite passada, o futebol da noite passada, o happy hour do dia anterior. Lá pelas quatro da tarde tinha mais cafezinho, a novela desta noite, o futebol desta noite, o happy hour daqui-a-pouco.
 
As seis da tarde, "viximaria, dona Cleusa não veio pagar o sinal, preciso cobrar, o hotel não confirmado do seu Pedro, puxa, o dia passa rápido, como eu trabalho!" E, afinal das contas, é bom se movimentar bastante quando o patrão está indo embora... e as horas "adicionais" eram computadas com as outras para somar o "quanto eu trabalho, sem descanso, coitado de mim!" E se tivesse um feriado na semana, ah!, esse Brasil, tsc, tsc, tsc... Certos empresários entram às 11 da manhã. Antes, "estão em reunião". Saem às 10 da noite, coitados. Durante o dia e parte da noite, trabalham o tempo todo. Tudo é computado como trabalho. O sr. Antônio Ermírio de Moraes "nunca tira férias". Pobrezinho.

Terceira observação: a Economia que eu nunca entendi.


Economistas vivem dizendo que "o Brasil perde sei-lá-quantos-milhões-de-dólares" com o carnaval, com a Semana Santa, com..." e vão por aí. Gostaria de saber de uma coisinha: será que ninguém produz nada, nadinha mesmo nos tais "dias parados"? A Economia acaba? Meu Deus do Céu! Acabam de tirar da Economia todas as atividades de lazer e turismo que têm nos finais de semana, férias e feriados seu maior movimento, conseqüentemente a maior movimentação financeira! Acabam de declarar que não existe ninguém trabalhando (portanto pessoal de toda a rede hoteleira do mundo, vocês não existem ou não trabalham!). Hospitais, transportes, hotelaria, parques, templos religiosos não fazem parte da Economia? Ou só fazem "de segunda a sexta"? Essa economia não é computada pelo pessoal que pega o PIB, divide por 365, tira os finais de semana, feriados e dá seu resultado mágico! Pronto, há "prejuízo" para a Economia (e para minha inteligência também).

Quarta observação: dias parados, faustões e livros.


Para aqueles que "não suportam" mais estes feriados, uma dica: não liguem rádio, televisão, não telefonem, não saiam da casa, pois assim não serão coniventes e nem se utilizarão de bens e serviços desta "Não Economia".

Fiquem em casa sem som e imagem (Internet nem pensar) e aproveitem para "azeitar" relacionamentos: com a esposa, marido, filhos, filhas, pais, mães, vizinhos. Leia aquele livro comprado e nunca aberto (ops, não, é um produto de consumo também!).

Médicos, operadores diversos, metroviários, ferroviários, motoristas, taxistas, aviadores, aeronautas, bilheteiros, cameras-men, policiais, guias de turismo, agentes de lazer, camelôs de praias e estádios, palhaços e barítonos: voltem para casa, não precisamos mais de vocês nos finais de semana e feriados! De quebra ajudamos a solucionar o problema da programação da TV: faustões, gugus e pocotós: procurem outro emprego.

Quase uma conclusão:

 Enquanto o dito Primeiro Mundo reduz consideravelmente as horas de trabalho aqui resmunga-se por mais trabalho, mais produção, excesso de feriados, de dias "parados". Talvez o que realmente precisemos é diminuir só um pouquinho a hipocrisia dos famosos "Meu Nome É Trabalho". Daqueles que não votam em candidato que "nunca trabalhou" (sic) mas... "não mexam no meu whisky!" P.S.: 1. Cícife, Efaístes e Prometeu, os deuses do trabalho eram todos condenados... 2. A palavra "trabalho" deriva de "tripallium", instrumento de tortura composto por três paus. Duas fincadas no chão e a terceira utilizada para empalar a vítima. :)

Leia também:


1. Governo filipino declara feriados extras para estimular turismo
 
2. Educação para o Lazer de Luiz Octávio de Lima Camargo, Editora Moderna, página 147
"(...) É, também, como se em alguns momentos a sociedade alterasse sua forma de ser e viver e, em vez da preocupação como o trabalho, iniciasse o período do descanso e divertimento. Ou seja, é como se em alguns momentos a sociedade se reciclasse econômica e culturalmente. (...) a diversão não diminui o resultado do trabalho da sociedade. Ela é prevista e mesmo paga pelo trabalho. Logo, sob esse ponto de vista, um dia parado pode ter custo zero para a sociedade."

3. Pesquisa (em andamento) de feriados em outros países no seguinte endereço.

 
 

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