Para aqueles que, de forma honesta e convicta, acreditam firmemente que a morte biológica é o fim absoluto, total e irreversível, não há muito com o que se preocupar. Do ponto de vista, rigorosamente lógico, o que conta é aproveitar o momento. Que razão haveria para preocupações com o futuro da espécie? Até mesmo o instinto de procriação pode ser perfeitamente subordinado à razão e com isso evitar-se qualquer tipo de problemas que possam obstar o gozo pleno do momento presente. O respeito às leis e valores éticos da sociedade resumem-se a um conjunto de regras práticas de convivência pacífica e cômoda. Apenas um preço a pagar para se ter bens, conforto e conveniências automaticamente protegidos e legitimados por lei.
----- Original Message ----- From: "Cesar Boschetti" <> To: "Widebiz" <widebiz@yahoogrupos.com.br> Sent: Sunday, June 18, 2006 9:53 PM Subject: [widebiz] reflexões de domingo depois de um futebol medíocre
> Perspectivas > > Exceto pela falência biológica geral e irreversível do homem em algum > momento do futuro, qualquer outro prognóstico do porvir não passa de > mero exercício especulativo. Apesar disto, a maneira como o homem encara > essa “trágica” certeza que, mais dia menos dia atinge a todos sem > exceção, tem profundas implicações no indivíduo e na sociedade, quer > seja para o presente quer seja para o futuro. > > A Ciência tem feito inumeráveis progressos no âmbito da saúde e > ampliação da expectativa de vida média, mas a perpetuação da vida, tal > qual a conhecemos, além de questionável sob inúmeros pontos de vista, > inclusive práticos, vai contra a ordem natural das coisas. Afinal de > contas, na natureza, tudo tem um ciclo, até mesmo as estrelas, planetas > e galáxias nascem e morrem. Por que o homem como indivíduo ou até mesmo > como espécie biológica deveria ser diferente? > > A procriação, sem sombra de dúvida, é um poderoso recurso da própria > natureza para que a espécie se perpetue ao longo dos séculos, milênios > ou até milhões de anos, mas nenhuma lei natural assegura que essa > perpetuação, literalmente falando, seja para toda a eternidade. O que > haverá por trás desta aparente contradição da Natureza? De um lado somos > fortemente compelidos a nos perpetuar como espécie. Mas por outro lado, > fica cada vez mais evidente a nossa fragilidade. Nossas atitudes parecem > apontar muito mais para a autoextinção do que para a perpetuação. Os > dinossauros, dentre inúmeras outras espécies não inteligentes, reinaram > na Terra por várias dezenas de milhões de anos. A espécie humana, dita > inteligente, se tem 1 ou 2 milhões de anos é muito e as chances de que > venha a sobreviver por mais alguns poucos séculos não são nada > promissoras. Como explicar isso? Como harmonizar a inteligência e o > instinto de procriação com a realidade da atitude humana objetivando um > horizonte mais amplo? > > É justamente neste ponto que o modo como encaramos a vida e a morte pode > fazer toda a diferença. Para aqueles que, de forma honesta e convicta, > acreditam firmemente que a morte biológica é o fim absoluto, total e > irreversível, não há muito com o que se preocupar. Do ponto de vista, > rigorosamente lógico, o que conta é aproveitar o momento. Que razão > haveria para preocupações com o futuro da espécie? Até mesmo o instinto > de procriação pode ser perfeitamente subordinado à razão e com isso > evitar-se qualquer tipo de problemas que possam obstar o gozo pleno do > momento presente. O respeito às leis e valores éticos da sociedade > resumem-se a um conjunto de regras práticas de convivência pacífica e > cômoda. Apenas um preço a pagar para se ter bens, conforto e > conveniências automaticamente protegidos e legitimados por lei. É tudo > uma questão de lógica. Se A=B então B=A e ponto final. > > Honestamente falando não acredito que existam muitos adeptos desta > Filosofia no Mundo. Existe muita falácia e bravatas em torno de um > pretenso e mal compreendido racionalismo, mas no fundo no fundo tudo não > passa de um ajuntamento de sons e palavras vazias. Quer goste ou não, o > homem trás dentro de si um algo mais que não se presta à análise > simplista e descuidada. Quer goste ou não, o homem, em sua vasta > maioria, consciente ou inconscientemente precisa de alguma forma de > transcendência. Essa transcendência ou autotranscendência que nos faz > sentir parte de algo maior e além do alcance pífio de nossa vista e de > nosso intelecto, seguramente, é uma das mais belas expressões da razão > humana. > > Mas então por que está tudo caminhando na direção errada? Por que essa > autotranscendência, em lugar de se traduzir em atitudes mais afinadas > com a perpetuação da espécie e ampliação da qualidade de vida do homem, > parece nos levar para lado oposto, como se não existisse ou fosse apenas > uma fantasia romântica? > > A resposta é simples! Se não existisse já teríamos há muito desaparecido > da face da Terra. Oportunidades para isso não faltaram e não faltam. Por > incrível que pareça, a autotranscendência é parte da evolução biológica, > ou melhor ainda, é uma garantia da evolução biológica. A realidade é que > a natureza não dá saltos. A evolução é lenta mas inexorável. Além disto, > quem foi que disse que o diagnóstico da realidade atual está completo e > que conhecemos todas as variáveis da equação da vida e da linha do > tempo? Quem garante que o espaço-tempo do eu, você e do agora são os > únicos possíveis no Universo? > > -- > Cesar Boschetti > Tecnologista Sênior > INPE - Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais > SJCampos - SP, Brasil > > > >