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Reflexões de domingo depois de um futebol medíocre
29/6/2006 - Widebiz

Para aqueles que, de forma honesta e convicta, acreditam firmemente que a morte biológica é o fim absoluto, total e irreversível, não há muito com o que se preocupar. Do ponto de vista, rigorosamente lógico, o que conta é aproveitar o momento. Que razão haveria para preocupações com o futuro da espécie? Até mesmo o instinto de procriação pode ser perfeitamente subordinado à razão e com isso evitar-se qualquer tipo de problemas que possam obstar o gozo pleno do momento presente. O respeito às leis e valores éticos da sociedade resumem-se a um conjunto de regras práticas de convivência pacífica e cômoda. Apenas um preço a pagar para se ter bens, conforto e conveniências automaticamente protegidos e legitimados por lei.



----- Original Message -----
From: "Cesar Boschetti" <>
To: "Widebiz" <widebiz@yahoogrupos.com.br>
Sent: Sunday, June 18, 2006 9:53 PM
Subject: [widebiz] reflexões de domingo depois de um futebol medíocre


> Perspectivas
>
> Exceto pela falência biológica geral e irreversível do homem em algum
> momento do futuro, qualquer outro prognóstico do porvir não passa de
> mero exercício especulativo. Apesar disto, a maneira como o homem encara
> essa “trágica” certeza que, mais dia menos dia atinge a todos sem
> exceção, tem profundas implicações no indivíduo e na sociedade, quer
> seja para o presente quer seja para o futuro.
>
> A Ciência tem feito inumeráveis progressos no âmbito da saúde e
> ampliação da expectativa de vida média, mas a perpetuação da vida, tal
> qual a conhecemos, além de questionável sob inúmeros pontos de vista,
> inclusive práticos, vai contra a ordem natural das coisas. Afinal de
> contas, na natureza, tudo tem um ciclo, até mesmo as estrelas, planetas
> e galáxias nascem e morrem. Por que o homem como indivíduo ou até mesmo
> como espécie biológica deveria ser diferente?
>
> A procriação, sem sombra de dúvida, é um poderoso recurso da própria
> natureza para que a espécie se perpetue ao longo dos séculos, milênios
> ou até milhões de anos, mas nenhuma lei natural assegura que essa
> perpetuação, literalmente falando, seja para toda a eternidade. O que
> haverá por trás desta aparente contradição da Natureza? De um lado somos
> fortemente compelidos a nos perpetuar como espécie. Mas por outro lado,
> fica cada vez mais evidente a nossa fragilidade. Nossas atitudes parecem
> apontar muito mais para a autoextinção do que para a perpetuação. Os
> dinossauros, dentre inúmeras outras espécies não inteligentes, reinaram
> na Terra por várias dezenas de milhões de anos. A espécie humana, dita
> inteligente, se tem 1 ou 2 milhões de anos é muito e as chances de que
> venha a sobreviver por mais alguns poucos séculos não são nada
> promissoras. Como explicar isso? Como harmonizar a inteligência e o
> instinto de procriação com a realidade da atitude humana objetivando um
> horizonte mais amplo?
>
> É justamente neste ponto que o modo como encaramos a vida e a morte pode
> fazer toda a diferença. Para aqueles que, de forma honesta e convicta,
> acreditam firmemente que a morte biológica é o fim absoluto, total e
> irreversível, não há muito com o que se preocupar. Do ponto de vista,
> rigorosamente lógico, o que conta é aproveitar o momento. Que razão
> haveria para preocupações com o futuro da espécie? Até mesmo o instinto
> de procriação pode ser perfeitamente subordinado à razão e com isso
> evitar-se qualquer tipo de problemas que possam obstar o gozo pleno do
> momento presente. O respeito às leis e valores éticos da sociedade
> resumem-se a um conjunto de regras práticas de convivência pacífica e
> cômoda. Apenas um preço a pagar para se ter bens, conforto e
> conveniências automaticamente protegidos e legitimados por lei. É tudo
> uma questão de lógica. Se A=B então B=A e ponto final.
>
> Honestamente falando não acredito que existam muitos adeptos desta
> Filosofia no Mundo. Existe muita falácia e bravatas em torno de um
> pretenso e mal compreendido racionalismo, mas no fundo no fundo tudo não
> passa de um ajuntamento de sons e palavras vazias. Quer goste ou não, o
> homem trás dentro de si um algo mais que não se presta à análise
> simplista e descuidada. Quer goste ou não, o homem, em sua vasta
> maioria, consciente ou inconscientemente precisa de alguma forma de
> transcendência. Essa transcendência ou autotranscendência que nos faz
> sentir parte de algo maior e além do alcance pífio de nossa vista e de
> nosso intelecto, seguramente, é uma das mais belas expressões da razão
> humana.
>
> Mas então por que está tudo caminhando na direção errada? Por que essa
> autotranscendência, em lugar de se traduzir em atitudes mais afinadas
> com a perpetuação da espécie e ampliação da qualidade de vida do homem,
> parece nos levar para lado oposto, como se não existisse ou fosse apenas
> uma fantasia romântica?
>
> A resposta é simples! Se não existisse já teríamos há muito desaparecido
> da face da Terra. Oportunidades para isso não faltaram e não faltam. Por
> incrível que pareça, a autotranscendência é parte da evolução biológica,
> ou melhor ainda, é uma garantia da evolução biológica. A realidade é que
> a natureza não dá saltos. A evolução é lenta mas inexorável. Além disto,
> quem foi que disse que o diagnóstico da realidade atual está completo e
> que conhecemos todas as variáveis da equação da vida e da linha do
> tempo? Quem garante que o espaço-tempo do eu, você e do agora são os
> únicos possíveis no Universo?
>
> --
> Cesar Boschetti
> Tecnologista Sênior
> INPE - Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais
> SJCampos - SP, Brasil
>
>
>
>


 
 

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