A península de Itapagipe
Berço de parte do acervo cultural da cidade do Salvador, a península Itapagipana se constitui como uma das áreas de grande beleza paisagístico-arquitetônica, além de que no passado desempenhou importante papel para a comunidade soteropolitana em termos de defesa militar, esporte e lazer, sincretismo religioso e cultural como um todo. Mas recentemente, a península contribuiu com o rock de protesto e com o carnaval com dois de seus filhos mais ilustres, RAUL SEIXAS e OSMAR MACEDO.
Portanto, considerando ainda, que a península Itapagipana representa parte dessas características ambientais e culturais de que falamos acima, e que, nos últimos 40 anos, não vem passando por transformações significativas seguindo a tendência geral da cidade do ponto de vista político e sócio – econômico com sua urbanização moderna.
Isso explica em parte por que estas transformações gerais não se têm traduzido em melhoria para a sua comunidade, pelo contrário o que se tem observado é a proletarização de sua população, degradação ambiental e descaracterização do patrimônio arquitetônico-paisagístico, como produto do descaso com que o poder público vem tratando esta parte da cidade nos últimos 40 anos.
De modo que, faz-se necessário também, descrever e conhecer um pouco das características ambientais e culturais da península, a fim de que possamos demarcar a importância destas para a atividade turística em Salvador, assim como na península de Itapagipe.
A área de Itapagipe compreende uma faixa de terra, encravada na Baía de Todos os Santos, que corresponde à parte baixa da falha tectônica, que divide Salvador em Cidade Alta e Cidade Baixa. A parte alta da falha está direcionada do largo da Vitória no sentido Sul - Norte, e acompanhando a faixa de terreno elevada até às proximidades, do bairro da Calçada, limite baixo do bairro da Liberdade e do Largo do Tanque. A partir da Calçada e acompanhando seu entorno litorâneo, percorrem-se os seguintes bairros e praias: Bairro de Roma, Boa Viagem, Monte Serrat, Ponta do Humaitá, Belvedere, Bonfim, Av. Beira Mar, Ribeira, Enseada dos Taineiros e Alagados; outrora uma área de manguezal, mas que a partir da década de trinta, foi destruída, dando início a favelização.
Na parte interior da península, encontram-se os seguintes bairros: Mares, Roma, Caminho de areia, Bairro Machado, Jardim Cruzeiro, Uruguai, Maçaranduba, Mangueira e Bate Estaca, sendo que estes últimos, se constituem como limite natural e prolongamento dos Alagados, até seu encontro com a avenida suburbana. A partir daí, é o subúrbio ferroviário, que no trecho de Lobato-Plataforma-Paripe, contribui no sentido de compor o acervo paisagístico - arquitetônico da Ribeira e da Enseada dos Taineiros.
Na sua porção ocidental, a península abriga as áreas elevadas do Bonfim e do Monte Serrat, que, no passado, desempenharam importante papel na defesa militar e cultura religiosa da comunidade baiana.
A sua orla marítima, apresenta-se diferenciada, em função da existência de recifes, enseadas, praias e nestas, a existência de coroas que, durante as marés de sizígia, ficam à mostra e servem na área para a produção de alimentos para a população local, de baixa renda.Vale enfatizar ainda que esta faixa do litoral já foi muito piscosa.
O processo histórico de organização da península deixou acervos culturais belíssimos, que no seu conjunto arquitetônico compreende alguns dos seguintes monumentos segundo o IPAC: Asilo D. Pedro II, Igreja e Hospício de Nossa Senhora da Boa Viagem, Igreja Basílica de Nosso Senhor do Bonfim, Igreja e Mosteiro de Nossa Senhora de Monte Serrat, Igreja Nossa Senhora da Penha e Palácio de Verão do Arcebispo, Forte de Monte Serrat, Solar Marback, Casas da Boa Viagem, Solar Amado Bahia, que apresentam as seguintes características:
MONUMENTO 1
DENOMINAÇÃO: ASILO D. PEDRO II (ANTIGO SOLAR MACHADO)
Localização: Luís Tarquínio, 18. Distrito: S.D. Mares.
Utilização atual: Asilo de Mendicidade
Situação e ambiência:
O asilo situa-se na Boa Viagem - península de Itapagipe - envolvido por amplos jardins que vão da Av. Luís Tarquínio até o mar. Segundo a tradição, sua fachada principal era originalmente voltada para a Marinha. Pavilhões novos construídos entre o asilo e o mar lhe privam atualmente de grande parte da vista. Período: Século XIX (1ª metade)
Descrição e pertences: Edifício de notável mérito arquitetônico, formado por três grandes lances de construção, desenvolvido segundo uma linha quebrada. É, talvez, a maior casa de residência que já existiu na Bahia. A entrada do edifício é precedida de um atrium gradeado com colunas culminadas por estatuetas neoclássicas e jarros de louça da fábrica de S. Antônio do Porto. O corpo principal tem pés direitos mais altos que as alas laterais. Possui uma bela capela com altar neoclássico, de meados do século XIX, em talha dourado sobre o fundo branco. No primeiro andar do corpo central está o salão nobre, cujo forro possui divisões triangulares, tendo ao centro armas do Império em relevo dourado. Este salão conserva galeria de retratos a óleo e mesa em jacarandá, estilo D. João V. Na fachada exibe frontão com armas imperiais, colocadas quando da transformação em asilo, platibanda com balustres, estatuetas, jarros e bela caixilaria em guilhotina.
MONUMENTO 2
DENOMINAÇÃO: IGREJA E HOSPÍCIO DE NOSSA SENHORA DA BOA VIAGEM
Localização: Praça Adriano Gordilho, s/n.
Distrito: S.D. Penha (19).
Utilização atual: Templo Religioso/ Sede da Congregação Passionista
Situação e ambiência: O conjunto situa-se na península Itapagipe, integrando o sítio tombado pelo IPHAN (GP-1) de Monte-Serrat/Boa Viagem. A igreja está voltada para o mar enquanto o hospício se abre para a praça Adriano Gondilho, hoje cercada de construções descaracterizadas ou novas.
Período: Século XVIII (1712)
Descrição e pertences: Edifício de notável mérito arquitetônico, apesar das transformações sofridas no começo deste século. Os padres da Irmandade do Coração de Maria, que ocuparam por algum tempo a igreja, modificaram muito a sua feição primitiva com a caiação de azulejos, com pinturas e enxertos vulgares. O edifício compreende o hospício com dois pavimentos desenvolvidos em torno de um pequeno pátio e igreja com uma única torre. O pátio primitivo do hospício parece ter sido invadido durante a construção da capela-mor, resultando uma duplicação de paredes, só explicável desta maneira. Há na capela-mor azulejos de Lisboa doados como ex-votos, datados de 1743/46, do ciclo oficial de Bartolomeu Antunes (1750/50) e outros dos períodos de 1740/50, de 1780/90. Na sacristia, existem arcaz e caixões em jacarandá, lavabo em mármore branco com delfins e bacia em forma de concha. Há duas imagens famosas: Senhor Bom Jesus dos Navegantes e N. S. da Boa Viagem.
MONUMENTO 3
DENOMINAÇÃO: IGREJA BASÍLICA DE NOSSO SENHOR DO BONFIM
Localização: Ladeira do Bonfim. Distrito: S.D. Penha (19). Utilização atual: Culto Religioso,
Sede da Irmandade. Período: Século XVIII (1745/1772)
Descrição e pertences: Edifício de notável mérito arquitetônico. Igreja de peregrinação e sede de uma das mais tradicionais devoções baianas.
Fachada parcialmente revestida de azulejos brancos portugueses de 1873, que contrastam com a pedra morena dos cunhais, portais, cercaduras e frontão.
Possui teto de nave pintado por Franco Velasco que é também autor dos painéis inspirados na Paixão. José Teófilo de Jesus assina os painéis da sacristia e sete dos trinta e quatro existentes nos corredores. A Bento José Rufino Capinam e seus filhos Tito Nicolau atribuem-se, respectivamente, “A Morte do Pecador” e “A Morte do Justo”. Este edifício Possui ainda azulejos de Lisboa (Ca 1853) com cenas da vida de Cristo e ricas alfaias como: sacrário em prata lavrada, lâmpadas e toucheiros também de prata. “Dante a imaginária”, destaca-se um belo crucifixo com cruz de ébano e adornos em prata. Possui também uma interessante coleção de ex-votos populares.
MONUMENTO 4
DENOMINAÇÃO: IGREJA E MOSTEIRO DE MONTE SERRAT
Localização: Rua da boa Viagem. Distrito: S. D. Penha (19).
Utilização atual: Culto Religioso Período: Século XVII (1650/1679)
Descrição e pertences: Edifício de notável mérito arquitetônico, embora alterado. O pequeno mosteiro possui dois pavimentos. A capela era, originalmente, revestida internamente de azulejos que foram retirados no começo do século: hoje restam, na parte inferior do coro, silhar do tipo tapete, padrão camélia de Lisboa (1650/60). O seu atual altar - mor veio da igreja de São Bento. Imaginária: São Pedro Arrependido, em barro cozido, de autoria do Frei da Piedade, e N. S. do Monte Serrat (séc. XVIII). A igreja é pobre em alfaias.
MONUMENTO 5
DENOMINAÇÃO: IGREJA DE N. S. DA PENHA E PALÁCIO DE VERÃO DO ARCEBISPO.
Localização Rua da Penha s/n. Distrito: S. D. Penha (19). Utilização atual: Culto Religioso/ Escola Municipal Período Século XVIII (1742)
Situação e ambiência: Conjunto de notável mérito arquitetônico formado pelo Palácio de Verão do Arcebispo e sua capela, ligados por uma “loggia” com galeria superposta. O pequeno ângulo formado pelos dois edifícios dá maior movimento à composição. O palácio se estrutura em torno de um saguão central, para onde convergem os demais cômodos. A nave possui tetos com painéis pintados, de autoria desconhecida. Existem restos quebrados de azulejos cobrindo o frontão do corpo central, realizado tardiamente e de pouca significação.
Dentre a imaginação: Santa Ana, São Joaquim, N. S. do parto (séc. XVIII) e uma efígie de Bom Jesus da Pedra, pintura imaginária lusitana. Desatacam-se entre as alfaias: custódia de prata com raios dourados, cálica e patena que pertenceram ao Arcebispo D. Romualdo de Seixas e castiçais de prata.