As virgens e as fadas tinham que defender-se da possibilidade de funcionarem como objeto sexual. As bruxas, ainda que quisessem tal papel, não mostravam nenhuma habilidade libidinosa para desempenhá-lo e as meretrizes lucravam com essa função. Com isso, a mulher ficou muito tempo sem assumir a posição de "sujeito sexual".
A nossa cultura ainda tem a inclinação de associar a virgindade ao romantismo, uma tradição que se fixou em nossos valores desde o século XII, quando o chamado amor cortês contemplou a possibilidade de um trovador dirigir-se a uma dama sem ofendê-la e de um justador dedicar uma vitória a uma senhora casada. Isso significava poder oferecer a elas a cortesia de um sentimento "puro", um amor que tem sido chamado de "platônico", isento de conotação sexual.
A perspectiva do afeto livre de sexo sustenta o mito de que, em primeiro plano, a virgem ideal represente a pessoa mais adequada para a parceria romântica, pois ela não tem experiência sexual e não poderia maliciar o envolvimento amoroso. Isso ainda tem representação nos dias atuais, inclusive com os temas explorados em telenovelas.
O culto à virgindade, tão presente nos seios familiares até meados do século passado, pretendia que uma moça viesse a conhecer o sexo depois de casada e para fins reprodutivos. Essa pretensão a virginizava para sempre, no sentido de nunca se interessar pelo sexo como oportunidade de prazer.
Enquanto vivenciasse o sexo desse modo limitado, apartado do aproveitamento realmente erótico, distante da busca do prazer, a moça continuaria pura e respeitada, virgem de tesão, inocente de libido. Caracterizá-la dessa forma a aproximaria da figura de um anjo que, no entanto, não tem identidade feminina. Esse paradoxo é um dos mais curiosos do nosso universo cultural, pois os anjos correspondem a entidades masculinas castas. Efetivar a castidade cabe aos homens, e não às mulheres, porque eles têm sexo para ser negado. Tudo funciona como se elas já fossem naturalmente assexuadas, não tendo um conteúdo erótico para ser renunciado.
A tradição moral da cultura falocentrada designa, de modo muito preponderante, os homens como sexuados, além do que sugere que eles sejam estimulados a ter experiências sexuais. Além da influência da moralidade, a referência anatômica que implica a exposição visível dos genitais masculinos e a movimentação fisiológica observada na resposta erétil e na ejaculação dos homens foram mesmo decisivas para definí-los como os seres do sexo. Na condição de terem os órgãos genitais voltados para dentro e de não demonstrarem seus orgasmos, as mulheres tiveram a sexualidade negada ou ocultada.
Existe em nossa mitologia uma figura com a qual a mulher é comparada muitas vezes, a fada. Na falta da "anja", caberia então uma identificação com a fada, que além dos atributos da bondade e da candura, também é pensada sem a mínima associação com o erotismo. Não se pode falar em sexo das fadas do mesmo modo que não se concebe o sexo dos anjos.
A oposição à fada é representada pela bruxa. Esta é uma figuração que se destaca pela feiúra e pela malvadeza mas, ainda assim, a mulher continua sem sexo. Se não se admite uma linda fadinha erotizada, muito menos poder-se-ia pensar em uma bruxa convencional com sensualidade. Aliás, o estilo de representação da megera mágica poderia até assemelhá-la a um homem, com aquela protuberância nasal que já foi especulada como morfologia peniana.
Se os homens têm que cumprir a missão sexual, quem seriam então as suas parceiras heterossexuais? Do conjunto assexuado formado por virgens, bruxas e fadas, parece que conseguiram emergir as prostitutas. Elas sempre foram apontadas como muito capazes de seduzir, mobilizar e satisfazer o desejo masculino, afrontando o recato e o pudor virginais, expondo-se e oferecendo-se aos parceiros, que encontram toda a facilidade para a vivência íntima com elas, desde que as ressarçam com dinheiro, evidentemente. Ainda assim, o que a prostituição esteve tratando e supostamente resolvendo foi especialmente o erotismo masculino.
As virgens e as fadas tinham que defender-se da possibilidade de funcionarem como objeto sexual. As bruxas, ainda que quisessem tal papel, não mostravam nenhuma habilidade libidinosa para desempenhá-lo e as meretrizes lucravam com essa função. Com isso, a mulher ficou muito tempo sem assumir a posição de "sujeito sexual". Só mais recentemente, depois da chamada revolução sexual dos anos sessenta é que ela começou a atuar como sujeito dos seus próprios interesses eróticos, como agente da sua própria libido.
Aconteceu, então, uma iniciação sexual realmente erótica da mulher. Desse modo, atualmente, ela pode desejar um parceiro, pode exigir que ele a satisfaça, cobrar dele uma participação mais resoluta e completa nos relacionamentos amorosos, de modo a desacostumar os homens dos pedestais machistas do erotismo masculino egoísta.
Hoje em dia, o cavaleiro das justas ou o cantador das trovas de nove séculos atrás não teriam vez diante das eleitas, pois elas não se conformariam apenas com a cortesia casta, tendo o pretendente que lhes dedicar também uma parceria libidinosa, uma perspectiva de prazer competente e satisfatório, atuando como um homem inteiro, conservando a galhardia do cavalheirismo mas participando com sua sexualidade integral.
Depois das novas demandas das iniciadas sexuais, quem sabe, nos tempos futuros, a nossa etapa atual de evolução amorosa possa ser apontada como "o século XXI, a era do pênis cortês"...
, médico psicoterapeuta e sexólogo, escreve aos sábados no Correio Popular.