Autora bauruense traduz pela primeira vez para a língua portuguesa 'Héracles', clássico grego de Eurípides
Héracles, tragédia de Eurípides, chega ao Brasil em edição bilíngüe Lançamento pela Editora Palas Athena, a primeira edição brasileira de Héracles, tragédia clássica de Eurípides, traduzida diretamente do grego pela jornalista Cristina Rodrigues Franciscato, mestre e doutoranda em Língua e Literatura Grega pela Universidade de São Paulo. A edição, bilíngüe, conta também com notas e um primoroso estudo introdutório assinado pela tradutora.
Héracles tem como tema a grandeza e a loucura do herói mais ilustre da mitologia grega, o célebre realizador dos Doze Trabalhos. A ação nos mostra Héracles (ou Hércules, seu nome latino), no ápice da glória, ao término dos Trabalhos, quando é enlouquecido pela deusa Hera. Louco, ele mata esposa e filhos com as mesmas armas que fizeram sua fama. Nesse sentido, é interessante notar que a peça focaliza um aspecto atualmente menos conhecido do mito, o que se poderia chamar talvez de “o outro lado” do herói.
A obra de Eurípides alerta para os perigos que acompanham a grandeza excessiva e a ultrapassagem de limites que são próprios aos mortais. De um modo geral, na tragédia grega, o herói, de qualidades e poderes excepcionais, acaba transpondo os limites próprios do humano. Essa transgressão perturba a ordem do mundo tal como deve ser. Então, cedo ou tarde, surge a punição divina, uma forma de restituir os limites transgredidos.
Autor de Medéia, Hipólito e As Bacantes, entre outras, Eurípides (c. 480/406 a.C.) introduziu inovações dramáticas na tragédia grega, tal qual desenvolvida pelos seus antecessores, Ésquilo e Sófocles. Num certo sentido, humanizou os velhos mitos da tradição helênica, conferindo-lhes maior densidade psicológica. Seu espírito crítico e ceticismo filosófico chocaram seus contemporâneos e ele alcançou maior popularidade após a morte. Segundo Plutarco, quando da guerra entre Atenas e Siracusa (415-413 a.C.), os vencedores siracusanos poupavam a vida dos atenienses que soubessem recitar algum trecho de Eurípides.
Do site Palas Athena com tradução e notas de Cristina Rodrigues Franciscato
Jornal da Cidade (Bauru)
Autora bauruense traduz pela primeira vez para a língua portuguesa 'Héracles', clássico grego de Eurípides
Uma obra digna de Hércules. Depois de três anos de trabalho, a jornalista bauruense Cristina Rodrigues Franciscato lança na próxima sexta-feira [04/07/03], a primeira versão para o português da tragédia grega 'Héracles', escrita por Eurípides, mesmo autor, entre outros, de 'Medéia' e 'As Bacantes' e 'Hipólito', que viveu quatro séculos antes de Cristo.
O lançamento do livro, editado pela Palas Athena, será realizado no Centro de Convenções do Obeid Plaza Hotel, em Bauru. No dia 9 de agosto a obra será apresentada em São Paulo, na sede da Associação Palas Athena.
Como trabalho de estréia, a autora não poderia ter escolhido um personagem mais nobre. Héracles (ou Hércules - seu nome latino e mais popular) é considerado o maior herói mitológico grego, não só por sua história, mas também pelo poder de sua imagem. 'Héracles é a figura mais representada na iconografia grega em todas as suas fases', diz a autora, mestre e doutoranda em língua e literatura grega pela Universidade de São Paulo (USP).
O desejo de traduzir a obra de Eurípides surgiu durante o mestrado na USP. 'É obrigatório fazer uma tradução do grego e eu queria trabalhar com uma tragédia, porque acho que é o gênero grego que mais trabalha com as questões da alma humana, um assunto que também me interessa', lembra Franciscato.
A escolha de 'Héracles' veio pelo conteúdo que, segundo a autora, aborda os limites humanos e as conseqüências (e penas) para quem os transgridem, uma questão comum na tragédia grega. O fato da obra nunca ter sido traduzida para o português selou a escolha. 'No final acabei fechando um ciclo, porque a minha porta de entrada para a mitologia grega foi Monteiro Lobato, de quem eu li, aos 9 anos, 'Os 12 Trabalhos de Hércules', conta Franciscato.
História pouco conhecida
Além de se dedicar ao sempre difícil trabalho da tradução, Franciscato apresenta no livro um estudo introdutório da obra de Eurípides e acrescenta notas explicativas ao texto, que tem como grande diferencial o fato de ser vir nas duas línguas: português e grego. 'Embora isso sirva para poucos, estudantes de grego poderão ler a obra nas duas versões, uma ao lado da outra', explica.
'Héracles' conta um episódio pouco conhecido da vida do herói de força descomunal, sempre lembrado pelos Doze Trabalhos que realizou a serviço de Euristeu. A tragédia de Eurípides encontra o semideus mitológico no auge de sua glória, após ter realizado os Trabalhos, quando era uma lenda entre o seu povo.
É nesse momento que Hera, deusa que sempre tramou contra o herói, consegue enlouquecê-lo e Héracles, com a mesma força e armas que fizeram sua fama, mata a esposa e os filhos.
É interessante lembrar que o mito de Héracles - como os demais mitos gregos - não segue uma ordem cronológica ou possui apenas uma versão. Desse modo, algumas das histórias do herói (mais populares) colocam esse episódio de sua vida antes dos Doze Trabalhos (que teriam vindo, então, como uma forma de expiação).
Ao criar uma versão na qual a tragédia familiar se segue ao auge de fama do herói, Eurípides teve uma idéia genial, segundo Franciscato, de mostrar como a grandeza excessiva e a ultrapassagem dos limites - próprias dos mortais - podem ser perigosas e precisam ser punidas para que tudo volte ao seu 'normal'.
Franciscato explica que traduzir o grego antigo demandou cuidados, principalmente pelo fato da tragédia ser trabalhada em seu original em dois dialetos, o ático, para a parte falada pelos personagens e o dórico para as líricas corais (é preciso lembrar que a obra foi escrita para ser apresentada como se fosse uma peça de teatro). 'A tragédia grega é estruturada nesse formato, em dois dialetos, o que dificultou um pouco. Mantive, na medida do possível, a ordem exata dos versos. A minha filosofia de tradução foi ficar mais próxima do texto do autor', diz.
Mas essa não foi, na opinião da autora, a maior adversidade encontrada no seu trabalho. 'A maior dificuldade que enfrentei foi a beleza intraduzível da língua grega na genialidade de Eurípides. Ter que traduzir algumas palavras com significados tão amplos chega a ser angustiante', avalia.
Serviço
Lançamento do livro 'Héracles', de Eurípides, traduzido por Cristina Rodrigues Franciscato. Realização: Editora Palas Athena e Instituto de Psicologia Junguiana de Bauru e Região. Dia 4 de julho, às 18h, no Centro de Convenções do Obeid Plaza. Avenida Nações Unidas, 19-50.
O mito
A história de Héracles foi contada por vários autores e, assim, possui diversas versões. De um modo geral, sua biografia o traz como filho da princesa Alcmena com Zeus - o deus supremo, que seduziu a bela jovem se fazendo passar por seu noivo, Anfitrião.
Por ser fruto de uma aventura de Zeus, Héracles é odiado pela esposa deste, Hera, que tenta contra a vida do semideus desde sua infância.
Por ter uma força fora do comum, Héracles assume o papel de salvador da humanidade, destruindo monstros e realizando tarefas impossíveis para os mortais.
Após realizar os Doze Trabalhos e, enlouquecido, matar toda a família, Héracles, já casado com Dejanira, encontra a morte numa vingança póstuma do centauro Nesso, morto por ele ao tentar violentar Dejanira. Algumas versões da história de Héracles contam que, enquanto agonizava na pira que lhe queimava o corpo, o herói teria sido conduzido ao Olimpo por Zeus e se transformado também em um deus.