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Turismo 2.0: viagens e navegações

O Arthur Frommer, criador do Frommer's, tem 80 anos e ano retrasado começou a blogar. Ele tem uma máxima que, na minha época de publicitário, eu acharia uma bobagem absoluta: "Quanto mais caro você paga, mais você se distancia do lugar que foi visitar". Eu não levaria isso totalmente ao pé da letra (conforto e um pouquinho de frescura sempre caem bem), mas concordo no essencial: quanto mais você consegue escapar da estrutura que se monta para o turista, mais você aproveita a sua viagem.



Redes internacionais de hospedagem grátis, sites que pesquisam preços, reservam hotéis e compram passagens, agências para alugar apartamentos via e-mail. São indícios de como a internet reconfigura o ramo do turismo e a rotina de viajantes em exercício. Os diários, manuscritos, perdem vez para blogs e, sobretudo, fotologs.

Na opinião de Ricardo Freire, publicitário por vinte anos e atualmente turista profissional, o Brasil ainda não tem a máxima capacidade da web aproveitada para aperfeiçoar o turismo, mas dentro em breve terá. A Terra Magazine, ele observa:

- A verdadeira revolução começou a partir da internet 2.0, quando os turistas tomaram o poder. Hoje atuam como os mais importantes fornecedores de informações, em sites de resenhas (como o TripAdvisor e o Booking.com) e em fóruns diversos. A gente ainda não sente isso tanto no Brasil porque a maioria desses sites e fóruns está em inglês, mas eu tenho certeza de que já já vamos ter em português.

Freire acaba de lançar seu segundo livro, 100 dicas para viajar melhor (Editora Globo), que resulta da experiência como blogueiro (ele tem um blog há três anos chamado "Viaje na viagem"). O livro é uma compilação de respostas a cem perguntas que freqüentemente fazem e que ele gostaria que fizessem sobre o ato de viajar.

Em sua maioria as respostas incluem o tema da web. Para viajantes solo, redes de relacionamento podem facilitar o contato com pessoas desconhecidas. Para mochileiros, clubes de albergues e informativos sobre passagens "low cost" (baratas) agilizam a viagem. A internet tem uma função para qualquer tipo de viajante.

Freire, no entanto, é assertivo em relação ao aproveitamento turístico, com ou sem uso da internet:

- Quanto mais você consegue escapar da estrutura que se monta para o turista, mais você aproveita a sua viagem.

Leia abaixo a entrevista com o viajante.

Terra Magazine - Com tantos sites e recursos virtuais voltados ao ato de viajar, a internet parece influir diretamente no ramo do turismo e nas rotinas de viagem. Essa impressão procede?
Ricardo Freire -
Totalmente. Já de saída a internet se transformou numa inesgotável biblioteca de folhetos turísticos; mesmo antes do Google, bastava saber pesquisar direito para ter acesso a informações que antes eram monopólio dos guias de papel, ou fotos que nem eles continham. Mas era tudo propaganda. A etapa seguinte foi o comércio eletrônico de viagens - algo que aqui no Brasil, com exceção do mercado de passagens aéreas, ainda está engatinhando. Entre nós a internet ainda é mais usada para decidir, e não para finalizar a compra. A verdadeira revolução, porém, começou a partir da internet 2.0, quando os turistas tomaram o poder e hoje atuam como os mais importantes fornecedores de informações, em sites de resenhas (como o TripAdvisor e o Booking.com) e em fóruns diversos. De novo, a gente ainda não sente isso tanto no Brasil porque a maioria desses sites e fóruns está em inglês, mas eu tenho certeza de que já já vamos ter isso em português.

Como a internet altera a rotina de viagem propriamente dita? A experiência de chegar em um lugar e desbravá-lo está de alguma maneira "contaminada" pela web?
Guias de viagem sempre existiram, voltados para todo tipo de público - do mochileiro ortodoxo, como eram os Lonely Planet de antigamente, ao americano conservador (Fodor's, Frommer's), ao jovem urbano descoladinho (Time Out). Para mim, o que estraga a experiência é ver um desses guias cheios de fotos e maquetes explicadinhas da DK (que no Brasil saem pela Publifolha). O que existe de diferente - e, a meu ver, superior - na internet é a possibilidade de obter informações que dão poder ao turista independente de ir fundo em suas explorações por conta própria. Eu mesmo agora estou fazendo um giro pela Europa e blogando ao vivo, com ênfase nos procedimentos passo a passo - como recarregar o seu cartão de transporte público em Lisboa, como andar de metrô em Madri, qual é a melhor maneira para fazer o circuito de Montjuic em Barcelona. Se eu conseguir tirar o meu leitor dos ônibus de city-tour, já estou feliz. Além disso, fotografo todas as minhas contas e publico, para que o futuro viajante saiba quanto vai custar uma refeição deste ou daquele tipo. Num guia de papel essas informações levam uns dois anos até chegar ao público final...

Qual é a dica essencial para um viajante, aquela da qual as outras, cem ou mais, derivam?
O Arthur Frommer, criador do Frommer's, tem 80 anos e ano retrasado começou a blogar. Ele tem uma máxima que, na minha época de publicitário, eu acharia uma bobagem absoluta: "Quanto mais caro você paga, mais você se distancia do lugar que foi visitar". Eu não levaria isso totalmente ao pé da letra (conforto e um pouquinho de frescura sempre caem bem), mas concordo no essencial: quanto mais você consegue escapar da estrutura que se monta para o turista, mais você aproveita a sua viagem.

Você atuou como publicitário por vinte anos e há três se tornou um turista profissional. Como publicidade e turismo se relacionam?
Os dois assuntos se relacionam da maneira mais infeliz possível. Muito do conteúdo de turismo é gerado em jornais e às vezes até revistas que não investem um centavo em viagem, e mandam gente que não está acostumada a viajar e passa o tempo todo sob a escolta da empresa ou do hotel que ofereceu a viagem. O resultado final é propaganda pura; as matérias não trazem nenhum tipo de comparação ou análise em perspectiva, e o lado negativo, ou menos positivo, de cada lugar, dificilmente é mencionado.

 


 
 

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