De: Lúcio Wandeck
Data: 8/10/2008 23:27:41
Para: widebiz@yahoogrupos.com.br; Mario Persona
Assunto: Re: [widebiz] Dolar
Mário & All
Por partes:
1- Os EUA sempre precisaram de dólares para bancar as guerras em que se envolvem (não entro no mérito), a sua formidável máquina militar, os subsídios que concedem a n+k setores produtivos internos, a sua participação em bancos de fomento mundiais e quetais e, obviamente, para bancar toda a sua infra-estrutura governamental.
2- Para tal, arrecadam tributos internos, os quais não são suficientes para cobrir as despesas. Então lançam mão das Letras do Tesouro, ou seja, endividam-se. É o país mais endividado do planeta.
3- A regulamentação interna norte-americana, no que concerne à área financeira, é frágil. A ausência de normas rígidas e coíbitivas permitiu que o capitalismo selvagem transformasse parte da sua economia em um grande casino (ou será cassino?).
4- O elástico das filepetas não aguentou os puxões pra lá e pra cá e se rompeu. Fundos de investimento alavancados em até 30 vezes, bancos em até 8 vezes, financiamentos hipotecários eleitoreiros concedidos sob o estímulo/aval do Partido Democrata e sei lá mais quantos fatores contribuiram para o rompimento do elástico. A economia rege-se sob o princípio dos vasos comunicantes. Os ativos e passivos financeiros fluem incessantemente de um vaso para outro. Basta que um deles faça água ou tenha um entupimento para desequilibrar a transferência uniforme do líquido. Foi o que aconteceu quando os devedores hipotecários deixaram de pagar. As seguradoras não tiveram capital para bancar as hipotecas. O resto já se sabe.
5- Os EUA precisam de dólares para cobrir os furos e entupimentos nos vasos comunicantes. Irão obtê-los emitindo Letras do Tesouro. A procura por dólares é maior do que a oferta, logo, de acordo com a vetusta lei, o preço da mercadoria "dolar" subirá, como já está subindo. É como o corpo humano, se as válvulas aórtica e mitral pararemm de funcionar, a circulação sanguínea ficará prejudicada e o coração poderá parar. O doente terá que ser submetido à uma operação cirúrgica complicada e bruta, mas sobreviverá se tiver saúde para resistir ao tranco.
6- O coração financeiro do mundo (EUA) será submetido à operação. Mas vai demorar a ser salvo, ainda está nos exames pré-operatórios. Quanto vai demorar, ninguém sabe. Se eu tivesse uma graninha sobrando, comprava, sem susto, Letras do Tesouro americano.
7- A crise já atingiu a Comunidade Européia e a Ásia.
8- Dizer que o Brasil está a salvo das conseqüências é balela. Mas, realmente, não estamos no olho do furação, devido ao princípio maniqueista dos opostos, o velho dualismo "bem" / "mal", isto é, por um lado odiamos as instituições financeiras brasileiras porque nos cobram juros extorsivos (mal), por outro lado, de tanto nos tomarem os nossos suados dinheirinhos, elas são fortes suficientemente para não quebrarem (bem).
Abs
Lúcio
(economista de porta de botequim)
----- Original Message -----
From: Mario Persona
To: Lista Widebiz
Sent: Wednesday, October 08, 2008 6:39 PM
Subject: Re: [widebiz] Dolar
André Pinnola escreveu: "Por outro lado, nosso
país tem se mostrado excelente investimento de longo
prazo, com juros mais altos que qualquer outro país. Por que os investidores
estão tirando dinheiro daqui?"
Segundo o meu filho, que entende mais do que eu
de números, bolsa etc., os investidores tiram os
investimentos daqui para tapar o buraco do outro lado do mundo.
Bonnet: Acheio o artigo neste endereço:
http://www.vermelho.org.br/base.asp?texto=44640
José Luis Fiori: O mito do colapso americano
"Como é meu intento escrever coisa útil para os
que se interessarem, pareceu-me mais conveniente
procurar a verdade pelo efeito das coisas, do que
pelo que delas se possa imaginar." - N. Maquiavel, em O Príncipe, 1513.
Por José Luis Fiori*
Na segunda feira, 6 de outubro de 2008, a crise
financeira americana desembarcou na Europa e
repercutiu em todo mundo de forma violenta. As
principais Bolsas de Valores do mundo tiveram
quedas expressivas, e governos e bancos centrais
tiveram que intervir para manter a liquidez e o
crédito de seus sistemas bancários. Neste
momento, não cabem mais dúvidas: a crise
financeira que começou pelo mercado imobiliário
de alto risco dos EUA já se transformou numa
crise profunda e global, destruiu uma quantidade
fabulosa de riqueza e deverá atingir de forma
mais ou menos extensa, desigual e prolongada, a
economia real dos EUA e de todos os países do
mundo. Muitos bancos e empresas seguirão
quebrando, nascerão rapidamente novas regras e
instituições, e haverá nos próximos meses uma
gigantesca centralização do capital financeiro,
sobretudo nos EUA e na Europa. Os bancos e
organismos multinacionais seguem paralisados e
impotentes e se aprofunda, por todo lado, a
tendência à estatização de empresas, à regulação
dos mercados e ao aumento do protecionismo e do
nacionalismo econômico. De todos os pontos de
vista, acabou a "era Tatcher/Reagan" e foi para o
balaio da história o "modelo neoliberal"
anglo-americano, junto com as idéias econômicas
hegemônicas nos últimos 30 anos. Como
contrapartida, mesmo sem fazer proselitismo
explícito, deverá ganhar pontos, nos próximos
meses e anos, em todas as latitudes, o "modelo
chinês" nacional-estatista, centralizante e planejador.
No meio do tiroteio, é difícil de pensar. Talvez
por isto, multiplicam-se, na imprensa e na
academia, os adjetivos, as exclamações e as
profecias apocalípticas, anunciando o fim da
supremacia mundial do dólar e do poder global dos
EUA, ou do próprio capitalismo americano. Na
mesma hora em que os governos e investidores de
todo mundo estão se refugiando no próprio dólar e
nos títulos do Tesouro americano, apesar de sua
baixíssima rentabilidade e apesar de que o
epicentro da crise esteja nos EUA. E, o que é
mais interessante, são os governos dos Estados
que estariam ameaçando a supremacia americana os
primeiros a se refugiarem na moeda e nos títulos
americanos. Para explicar este comportamento
aparentemente paradoxal, é preciso deixar de lado
as teorias econômicas convencionais sobre o
"padrão-ouro" e o "padrão-dólar", e também as
teorias políticas convencionais sobre as crises e
"sucessões hegemônicas" dentro do sistema mundial.
Comecemos pelo paradoxo da "fuga para o dólar",
em resposta à crise do próprio dólar. Aqui é
preciso entender algumas características
específicas e fundamentais do sistema
"dólar-flexível". Desde a década de 1970, os EUA
se transformaram no "mercado financeiro do
mundo", e o seu Banco Central (Fed), passou a
emitir uma moeda nacional de circulação
internacional, sem base metálica, administrada
através das taxas de juros do próprio Fed e dos
títulos emitidos pelo Tesouro americano, que
atuam em todo mundo como lastro do sistema
"dólar-flexível". Por isto, a quase totalidade
dos passivos externos americanos é denominada em
dólares e praticamente todas as importações de
bens e serviços dos EUA são pagas exclusivamente
em dólar. Uma situação única que gera enorme
assimetria entre o ajuste externo dos EUA e dos
demais países. Por isto também, a remuneração em
dólares dos passivos externos financeiros
americanos que são todos denominados em dólar
seguem de perto a trajetória das taxas de juros
determinadas pela própria política monetária
americana, configurando um caso único em que um
país devedor determina a taxa de juros de sua própria "dívida externa".
Uma mágica poderosa e uma circularidade
imbatível, porque se sustenta de forma exclusiva
no poder político e econômico americano. Agora
mesmo, por exemplo, para enfrentar a crise, o
Tesouro americano emitirá novos títulos que serão
comprados pelos governos e investidores de todo
mundo, como justifica o influente economista
chinês, Yuan Gangming, ao garantir que "é bom
para a China investir muito nos EUA; porque não
há muitas outras opções para suas reservas
internacionais de quase US$ 2 trilhões, e as
economias da China e dos EUA são interdependentes". (FSP, 24/11).
Mas, além disto, do ponto de vista da hierarquia
mundial, se esta crise for administrada de forma
estratégica pelo governo americano, ela poderá
reforçar, ao invés de enfraquecer, a posição
futura dos EUA dentro do sistema mundial. Para
entender este segundo paradoxo, entretanto, é
necessário ir um pouco além da economia e das
finanças, e analisar com cuidado a origem e os
desdobramentos das crises e da competição entre
os Estados nacionais. Em primeiro lugar, quase
todas as grandes crises do sistema mundial foram
provocadas, até hoje, pela própria potência
hegemônica. Em segundo lugar, estas crises são
provocadas quase sempre pela expansão vitoriosa
(e não pelo declínio) das potências capazes de
atropelar as regras e instituições que eles
mesmos criaram num momento anterior, e que depois
se transformam num obstáculo no caminho da sua
própria expansão. Em terceiro lugar, o sucesso
econômico e a expansão do poder da potência-líder
é um elemento fundamental para o fortalecimento
de todos os demais Estados e economias que se
proponham concorrer ou "substituir" a potência
hegemônica. Por isto, finalmente, as crises
provocadas pela "exuberância expansiva" da
potência-líder afetam em geral de forma mais
perversa e destrutiva aos "concorrentes" do que
ao próprio líder, que costuma se recuperar de
forma mais rápida e poderosa do que os demais.
Resumindo: "apesar da violência desta crise
financeira, não deverá haver um vácuo nem uma
'sucessão' na liderança política e militar do
sistema mundial. E, do ponto de vista econômico,
o mais provável é que ocorra uma fusão financeira
cada maior entre a China e os Estados Unidos".
* José Luís Fiori é professor titular do Instituto de Economia da UFRJ.
Artigo publicado no Valor Econômico (08/10)
At 17:48 8/10/2008, LC Bonnet wrote:
>A mais interessante estruturada avaliação da
>crise americana está hoje no VALOR, e artigo do
>José Luís Fiori, inclusive esclarecendo a
>questão colocda pelo Mário: um país em explosão
>tem a sua moeda como padrão... Li rapidamente o
>artigo e não pude nem recortá-lo. Se alguém dos
>companheiros assinar o Valor eu proponho que
>colocasse o texto em giro pela Lista...
>Abs.
>
>LCBonnet
>
> ----- Original Message -----
> From: Andre Pinnola
> To: Lista Widebiz
> Sent: Wednesday, October 08, 2008 5:09 PM
> Subject: Re: [widebiz] Dolar
>
>
> Mario,
> estou aqui pensando exatamente a mesma coisa. Acho que muita gente está, só
> alguns especuladores poderosos devem estar ganhando com isso aqui no BR.
> Aqueles que perderam muito com a estabilidade da moeda nacional...
> Por outro lado, nosso país tem se mostrado excelente investimento de longo
> prazo, com juros mais altos que qualquer
> outro país. Por que os investidores
> estão tirando dinheiro daqui?
> Economistas, socorro!
> Abraço!
> André Pinnola
>
> 2008/10/8 Luiz M <luizm@rocketmail.com>
>
> > Ouvi uma análise na CBN (Se não me engano do Sardenberg) e ele explicava
> > exatamente isso.
> >
> > A Fuga não é propriamente par ao Dolar, mas os Títulos do Tesouro
> > Americano, o título mais seguro do mundo,
> pode não gerar lucro, ou até algum
> > prejuizo com a taxa de juros abaixo a
> inflação americana, mas pelo menos o
> > Governo Americano não vai quebrar e dar calote .
> >
> > E para comprar título do Governo dos EUA, precisa ter Dolar, logo...
> >
> >
> >
> > Luiz Edmundo Machado
> > Gerente de Projetos
> > Querendo entender a WEB 2.0? leia meu
> > Bloghttp://tecbiz.blogprofissional.com.br
> > Gosta de futebol e quer rir um pouco? leia meu
> > Bloghttp://abobrinhatricolor.blogprofissional.com.br
> > Tecnologia para pequenas e médias empresas? leia meu
> > Bloghttp://pmedigital.blogprofissional.com.br
> > Quer ter um Blog Profissional? Visite http://www.blogprofissional.com.br
> >
> >
> >
> > ----- Mensagem original ----
> > De: Makoto Shimizu <makotos@gmail.com <makotos%40gmail.com>>
> > Para: Mario Persona
> <contato@mariopersona.com.br<contato%40mariopersona.com.br>
> > >
> > Cc: widebiz@yahoogrupos.com.br <widebiz%40yahoogrupos.com.br>
> > Enviadas: Quarta-feira, 8 de Outubro de 2008 15:24:22
> > Assunto: Re: [widebiz] Dolar
> >
> > Hello Mario,
> >
> > Olha, zapeando eu ouvi um comentarista
> dizer que se está correndo atrás do
> > dólar por que o Euro inspira ainda menos
> confiança que o dólar !!!???!!! Dá
> > para imaginar o que isso significa ???
> >
> > E emendando com outros comentários foi dito que a tal União Européia está
> > mais é para desunião européia, está um Deus
> nos acuda, salve-se quem puder
> > -
> > será verdade ou exagero ???!!!
> >
> > Quanto ao dólar, não está mais atrelado ao padrão ouro, e o tal do Fort
> > Knox
> > aonde deveria haver ouro em barras deve
> estar vazio, nem mosca tem - basta
> > ao Tio Sam adquirir mais impressoras, mais papel-moeda e tinta e mandar
> > bala
> > (literalmente, balas de fuzil, canhão,
> armamentos e tuchar goela abaixo dos
> > aliados)
> >
> > Engraçado é o barril de petróleo estar na casa dos US$ 90 o barril -
> >
> > E aqui no Brasil, como só é marola, teremos recorde de vendas no dia das
> > crianças, isso sim é o milagre do crescimento !
> >
> > Houve falência de alguma lista de negócios ???
> >
> > ¦ )
> > Makoto
> >
> > 2008/10/8 Mario Persona <contato@marioperson a.com.br>
> >
> > > Ontem depois do debate Obama x McCain um
> > > comentarista (CNN, FoxNews ou BBC, não sei porque
> > > fiquei pulando) comentou (portanto fez o papel
> > > dele de comentarista) : "Os dois estão prometendo
> > > cortar impostos, investir bilhões aqui e ali, mas
> > > eu pergunto: Como eles pretendem fazer isso em um país quebrado?"
> > >
> > > Algum widebizer economista na linha? Fiquei
> > > pensando com meus botões... em todas as crises
> > > todo mundo corre para o dólar, mas será o caminho
> > > correto quando o dono da moeda está quebrado e
> > > pode derramar moeda no mercado? Alguém pode me
> > > explicar isso? Não estou falando de dólar do Zimbawe, mas dos EUA.
> > >
> > > Outra coisa: Pretendo patentear um produto
> > > inovador: colchão com compartimentos para
> > > diferentes tipos de investimentos, como ouro, diamantes e conchas.
> > >
> > > Mais uma coisa: Meu sobrinho está hoje na China e
> > > disse que não viu nenhuma notícia de crise por
> > > lá. Só para conferir entrei em um noticiário em
> > > chinês e também não ouvi falar de crise.
> > >
> > > Mario Persona
> > >
> > >
> > >
> >
> > --
> > Makoto Shimizu