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Planejamento e gestão em unidades de conservação: comunidades, visitantes e preservação ambiental
6/4/2005 - Giovanni de Farias Seabra

A tendência da conservação da biodiversidade mundial inclui nas áreas protegidas os grupos sociais tradicionais Este fato é da maior importância, visto que cerca de 80% dos parques nacionais existentes no mundo mantêm populações residentes dentro dos seus limites. No Brasil o problema é acentuado devido à superposição das unidades de conservação sobre terras indígenas. São 55 casos de sobreposição entre terras indígenas e unidades de conservação hoje existentes no país.



As mudanças ambientais globais e locais estão quase sempre associadas às intervenções humanas no espaço geográfico, cujos impactos provocam irreversíveis transformações do meio ambiente. Estas alterações estão vinculadas a diversos fatores sócio-econômicos e sócio-ambientais, como adensamento populacional, surgimento de novos povoamentos, metropolização, expansão agropecuária, desmatamento, industrialização e a crescente produção de resíduos sólidos.

Entretanto, as mudanças do meio ambiente também se processam ao longo de extensos períodos geológicos, manifestados através de fatores físico-naturais, a exemplo das migrações continentais, mudanças climáticas, deslocamentos das geleiras e soerguimento das cordilheiras. Ás vezes os desequilíbrios ecológicos podem ser súbitos e catastróficos devido aos desastres naturais provocados pelos terremotos, maremotos, erupções vulcânicas e quedas de meteoros.
No livro Diversidade da Vida, Wilson (1994) relata que há cerca de 75.000 anos atrás, uma enorme explosão vulcânica abalou a região central da ilha de Sumatra, com grande perda de vida selvagem e dos povos paleolíticos. A depressão central aberta pela hecatombe deu origem posteriormente o Lago Toba.

A história geológica da vida registra fatos como estes ocorrendo há milhões de anos, causando desastres ambientais em todo o mundo e provocando a extinção da biodiversidade em quase a sua totalidade. Com dimensões mais reduzidas, fenômenos vulcânicos acompanhados de erupções e derrames de lavas acontecem todos os anos em várias partes do planeta.
Mais recentemente, na manhã do dia 26 de dezembro de 2004, a humanidade surpreendeu-se com a catástrofe provocada por um terremoto na ilha de Sumatra, e o conseqüente maremoto que varreu cidades litorâneas de dez países, deixando cerca de trezentas mil vítimas fatais e milhares de desaparecidos. Em minutos a ilha de Trinkat, situada no Oceano Índico, partiu-se ao meio e a metade do seu território desapareceu nas profundezas do mar.

Contudo, em nível global, a espécie humana detém o maior poder de destruição na atualidade, lançando para a eternidade uma parcela significativa das espécies contemporâneas. Esse processo histórico de degradação ambiental remonta às sociedades primitivas, prosseguindo nos chamados tempos modernos e na pós-modernidade.

São inúmeros casos de destruição de dimensões consideráveis provocados pelas intervenções do homem sobre o meio ambiente ao longo do tempo. Cerca de oito mil anos atrás, colonizadores polinésios dizimaram as aves de grande porte que habitavam as ilhas do Pacífico. Durante as longas travessias oceânicas, esses paleoíndios extinguiram quase a metade das espécies endêmicas que encontraram nos arquipélagos. Navegando em pequenos barcos a remo, os polinésios partiam do sudoeste da Ásia e avançavam sem parar, de ilha em ilha, devorando tudo o que encontravam pela frente deixando no rastro as marcas da devastação. No início de 1900, 500 mil tartarugas gigantes habitavam as ilhas Galápagos, no Equador; atualmente restam apenas 15 mil desses quelônios protegidos no Parque Nacional Galápagos.

A história recente revela que em algumas centenas de anos a ocupação da América do Norte extinguiu 73% dos mamíferos de grande porte que povoavam o continente no final do Pleistoceno; por outro lado, a colonização da América do Sul destruiu 80% da fauna pleistocênica (Wilson, op. cit.). Junto a esses dados, pode-se acrescentar a quase total extinção das tribos indígenas em todo o continente americano, devido ao avanço da colonização e das frentes pioneiras. No período colonial, 10 milhões de africanos foram eliminados. Na descoberta do Brasil a população indígena totalizava três milhões de indivíduos, dos quais restam pouco mais de 300 mil, em sua maioria perecendo pela fome, desnutrição e doenças infecto-contagiosas.  

Esses fatos permitem compreender o processo evolutivo da questão ambiental nacional. O fenômeno pode ser explicado através do mecanismo de exploração dos recursos naturais que perdurou ao longo de toda história deste país. Por suas extensas dimensões territoriais criou-se no Brasil, desde sua descoberta, a mentalidade colonial-extrativista e o mito dos recursos naturais inesgotáveis.

Bastaram poucos séculos para que a mata atlântica fosse quase toda dizimada, como também extensas áreas dos biomas de cerrado, floresta amazônica e caatinga, este último em flagrante processo de desertificação.

Foram suficientes apenas quinhentos anos, desde a descoberta do Brasil, para que a degradação ambiental atingisse uma situação alarmante. Primeiramente houve a exploração do pau-brasil, fartamente utilizado na Europa pelas indústrias de tinturaria; posteriormente madeiras-de-lei nativas da mata atlântica eram indiscriminadamente utilizadas no fabrico de caixotes para o transporte do açúcar, construções, aquecimento das fornalhas dos engenhos e ainda, florestas inteiras foram incendiadas para facilitar o apresamento dos índios, abrir caminho para os canaviais e dar lugar às cidades litorâneas e o povoamento do interior.

O avanço das frentes agropecuárias sobre ecossistemas de cerrado e floresta amazônica, associada à extração madeireira, incentivados pelo caráter devastador das políticas públicas, situam o Brasil no primeiro lugar em desmatamento, conforme registrado no Guiness Book. Para se ter uma idéia do tamanho da devastação florestal, o país desmata 25.000 km² por ano, uma área correspondente ao estado de Sergipe. Diante dos níveis alarmantes da devastação florestal, em jornais londrinos foram publicados anúncios dizendo: Protejam as florestas, queimem um brasileiro. 

A devastação histórica e catastrófica do planeta faz surgir a pergunta: Então para que conservar a natureza? Pelo simples fato de que os componentes ambientais são obras da criação divina e por isso devem ser preservados.

Entretanto, a questão ambiental é fortemente influenciada pelos aspectos econômicos, políticos e administrativos, tanto públicos como privados, dificultando seguramente a aplicação dos princípios da sustentabilidade, conforme o documento Nosso Futuro Comum, apresentado em 1987 pela Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento.

No contra-fluxo da degradação ambiental, provocada pelo desenvolvimento econômico, são criadas as unidades de conservação, cujo maior objetivo é garantir a proteção dos recursos naturais e manter as funções ecológicas do meio ambiente, estando nele incluídas a biodiversidade e as populações tradicionais.

Neste sentido, torna-se imperativo a conservação não somente dos ecossistemas naturais, mas também dos valores culturais sistemicamente inseridos nas unidades de conservação (Seabra, 1998). Esses valores correspondem tanto à tradição indígena como também aos povos tradicionais de base familiar, como extrativistas, pescadores, agricultores e mineiros. A tendência da conservação da biodiversidade mundial inclui nas áreas protegidas os grupos sociais tradicionais Este fato é da maior importância, visto que cerca de 80% dos parques nacionais existentes no mundo mantêm populações residentes dentro dos seus limites (Terborgh, 2002). No Brasil o problema é acentuado devido à superposição das unidades de conservação sobre terras indígenas. São 55 casos de sobreposição entre terras indígenas e unidades de conservação hoje existentes no país (Ricardo, 2004).

Após o maremoto que devastou as ilhas do Pacífico sul e do Oceano Índico, autoridades do Sri Lanka querem usar animais no sistema de alerta de terremotos e tsunamis, aproveitando os instintos animais que permitiram à vida selvagem do país escapar quase incólume das ondas gigantes. Guardas do Parque Nacional de Yale, o maior do Sri Lanka, acreditam que os animais fugiram antes que o tsunami atingisse a costa no dia 26 de dezembro de 2004, matando mais de 38 mil pessoas no país. Especialistas afirmaram que elefantes e outros animais do parque tiveram tempo de fugir devido aos aguçados sentidos como a audição, permitindo-os detectar em tempo hábil a aproximação do tsunami.

Na Índia, os povos nativos que habitam as ilhas de Andaman e Nicobar escaparam da destruição refugiando-se nas partes mais altas, após serem alertados pela mudança de comportamento dos animais. Estes aborígenes pertencentes a tribos primitivas seminômades são caçadores e coletores que produzem fogo pelo atrito de pedras, utilizam arco e flecha para obter alimento e vivem em cabanas feitas de folhas e galhos.

Infelizmente, o mesmo não acontece no Brasil, os povos tradicionais são permanentemente ameaçados de destruição, em função do modelo econômico adotado e a insuficiente aplicação dos mecanismos para a conservação ambiental.

Segundo dados do Instituto Sócioambiental – ISA, publicados em 2005, o Brasil possui 6% do seu território destinado à proteção da fauna, flora e demais recursos naturais, ocupando o 17º lugar no ranking da América Latina. Essa porcentagem é ainda muito reduzida, quando comparada a outros países como a Costa Rica, que destina 26% do território nacional à conservação ambiental.

Por outro lado, a conservação da natureza pode significar uma grande fonte de divisas para o país. O Protocolo de Kyoto, ratificado por 141 países em fevereiro de 2005, prevê cotas de preservação ambiental em troca de CO² produzido pelas empresas poluidoras. Existem inúmeras agências empenhadas em financiar a conservação ambiental no mundo inteiro.
No Brasil existem cinco sítios do Patrimônio Natural da Humanidade, título concedido pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura - UNESCO. O reconhecimento mundial do patrimônio natural atrai a atenção de investidores, facilitando negociações internacionais de empréstimos e financiamentos de projetos de preservação ou recuperação ambiental.

São considerados como patrimônio natural da humanidade o Parque Nacional do Iguaçu (Paraná), P. N. Costa do Descobrimento (Bahia), a Floresta Atlântica/Reserva do Sudeste (Paraná e São Paulo), P. N.do Pantanal (MS) e o P. N.do Jaú, no estado do Amazonas.

Entretanto, a sobrecarga de visitantes e o descuido das autoridades com a conservação ambiental estão colocando em risco a manutenção do título concedido, a exemplo do Parque Nacional do Iguaçu, que mantém no seu interior intenso tráfego de veículos através da Estrada do Colono e excessiva visitação, superando um milhão de pessoas ao ano.

A realidade nos mostra que os impactos negativos provocados pela criação de unidades de conservação são inevitáveis, especialmente devido à expulsão das comunidades tradicionais, introdução de novos valores culturais, aumento da demanda sobre o uso dos recursos naturais e, mais recentemente, o turismo ecológico.

Visando disciplinar o uso das áreas protegidas, o Governo Federal aprovou em 2000 a Lei Federal 9.985, instituindo o Sistema Nacional de Unidades de Conservação – SNUC. O sistema criou novas categorias de áreas protegidas reunidas em dois grupos:
 
I – Unidades de Proteção Integral;

II – Unidades de Uso Sustentável.

As Unidades de Proteção Integral compreendem as seguintes categorias de UCs: Estação Ecológica, Reserva Biológica, Parque Nacional, Monumento Natural, e Refúgio da Vida Silvestre. 
No grupo Uso Sustentável encontram-se as categorias: Área de Proteção Ambiental, Área de Relevante Interesse Ecológico, Floresta Nacional, Reserva Extrativista, Reserva de Fauna, Reserva de Desenvolvimento Sustentável e Reserva Particular do Patrimônio Natural.
 A nossa abordagem adotou como parâmetro reflexivo as seguintes categorias: Parque Nacional (PN), Área de Proteção Ambiental (APA), Floresta Nacional (Flona), Reserva Extrativista (Resex), Estação Ecológica, e Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN).

Algumas dessas unidades de conservação alcançaram êxito, através da aprovação e execução dos planos de manejo por meio da gestão participativa, envolvendo os diversos setores sociais e entre eles as comunidades tradicionais. Os benefícios adquiridos pelas comunidades com o uso sustentável dos recursos naturais são evidentes, principalmente nas reservas extrativistas e nas florestas nacionais. Alguns projetos bem sucedidos em unidades de conservação podem ser apontados, como a Reserva Extrativista Chico Mendes (AC), administrada por associações de seringueiros, e a Floresta Nacional do Araripe (CE), cuja gestão segue o modelo participativo.
Segundo o Regulamento dos Parques Nacionais Brasileiros, aprovado em setembro de 1979, pelo Decreto Nº 80.017, os parques nacionais compreendem

áreas geográficas extensas e delimitadas, dotadas de atributos naturais excepcionais, objeto de preservação permanente, submetidas à condição de inalienabilidade e de indisponibilidade no seu todo.

Essas áreas de proteção integral destinam-se a fins científicos, culturais, educativos e recreativos, sendo criados e administrados pelo Poder Público Federal.

O Parque Nacional de Itatiaia, no Rio de Janeiro, foi o primeiro a ser criado no Brasil, no ano de 1937, 65 anos após a criação do primeiro do mundo, o Parque Nacional de Yellowstone (EUA), fundado em 1872. Existem atualmente 58 parques nacionais no Brasil, sendo que em sua maioria não contam com infra-estrutura necessária à preservação dos ecossistemas e ao acolhimento, acompanhamento e fiscalização dos visitantes.

Conseqüentemente, essas unidades de conservação de preservação integral convivem com problemas diversos, como a não desapropriação e conflitos de terras, incêndios criminosos, exploração de madeiras e minerais, a caça predatória , além do turismo mal conduzido e sem sustentabilidade sócio-econômica e ambiental.  

Para atender interesses econômicos, houve mudanças significativas nos objetivos dos parques nacionais, e a administração dessas unidades de conservação está sendo transferida às organizações não governamentais e ao setor privado. Para que esse fim fosse alcançado, a primeira medida adotada pelo Governo Federal foi suprimir o conceito de parque nacional do SNUC, cuja ênfase reside na preservação do patrimônio natural e incentivo à pesquisa científica, introduzindo o turismo ecológico nos seus objetivos.

Na maioria das unidades de conservação federais a atuação do poder público é insuficiente, estando ausente ou transferindo a administração ao terceiro setor através de convênios. Segundo o Fundo Mundial para a Natureza, para cada dez mil quilômetros quadrados de áreas destinadas à conservação, são necessários 27 funcionários. O Brasil possui quatro funcionários em média, portanto insuficientes para garantir a manutenção da biodiversidade e a preservação dos monumentos naturais.

O Parque Nacional do Jaú (AM), segundo maior do Brasil, com 2,27 milhões de hectares, é protegido por apenas três fiscais do Ibama; o Parque Nacional das Montanhas de Tumucumaque (AP), o maior do mundo em região tropical, com 3,8 milhões de hectares, possui apenas um funcionário, o diretor do parque, residente em Macapá.

As áreas de proteção ambiental (APAs) são destinadas a proteger e conservar a qualidade ambiental e os sistemas naturais existentes, visando à melhoria da qualidade de vida da população local e a proteção dos ecossistemas regionais. Segundo os objetivos de criação das APAs, são autorizadas nos seus limites atividades econômicas não causadoras de danos ambientais.

Contudo, não é o que acontece na realidade. As APAs servem muito mais para mascarar a degradação ambiental provocada pela instalação dos empreendimentos do que propriamente para proteger o meio ambiente. Durante a implantação da Área de Proteção Ambiental de Guadalupe, no estado de Pernambuco, foi constatado o desrespeito à legislação, evidenciando-se inúmeros impactos sócio-ambientais, provocados pelas empreiteiras durante a abertura das vias de acesso ao Centro Turístico Guadalupe, comprometendo áreas de mangues e acelerando processos erosivos nos taludes, além da marginalização dos pescadores e catadores de crustáceos (Seabra, 2001a).

Em visita à APA de Itacaré, litoral sul da Bahia, constatamos a destruição de áreas de mangues, mata atlântica e povoados de pescadores,  devido à construção da estrada ecológica, uma rodovia litorânea, com 48 quilômetros de extensão, ligando Ilhéus às praias de Itacaré.

As reservas particulares do patrimônio natural (RPPNs) são  imóveis do domínio privado que possuem condições naturais primitivas ou semi-primitivas, cujas características justifiquem ações de recuperação pelo seu aspecto paisagístico, ou para a preservação do ciclo biológico de espécies da  fauna ou da flora  nativas do Brasil.

Diante da falta de recursos e funcionários para administração dos parques nacionais, o Ministério do Meio Ambiente está transferindo o controle dessas unidades de conservação às organizações não governamentais e ao setor privado, sem que haja participação efetiva das comunidades locais na tomada de decisões.  As ONGs responsáveis pela administração dos parques nacionais padecem da falta de recursos e de funcionários suficientes para garantir os objetivos da conservação.

Podemos citar alguns parques nacionais administrados pelo terceiro setor, como o Parque Nacional da Amazônia (Fundação Vitória Amazônica), o Parque Nacional Grande Sertão Veredas (Funatura), o Parque Nacional da Serra da Capivara (Fundham) e o Parque Nacional do Pantanal (Ecotrópica).

Devido à exigüidade de recursos, está ocorrendo a privatização dos parques nacionais através de concessões feitas pelo Ministério do Meio Ambiente às operadoras de turismo.
Em 2002, o site do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis – IBAMA, publicou matéria intitulada Parques Nacionais: oportunidade de negócios oferecendo os Parques Nacionais como mercadoria a ser explorada pelas empresas de ecoturismo. O texto relatava que no Brasil esse novo negócio foi responsável pela movimentação de R$ 2,2 bilhões em 1994, pulando para R$ 3 bilhões em 1995. Um salto de 36% em apenas um ano, muito acima da média mundial, de 20%.

Para este ano de 2005, o IBAMA estima um movimento de 10,8 bilhões de dólares em razão do aumento da atividade ecoturística nas unidades de conservação. Vale salientar que nessas cifras estão computados apenas os lucros, sendo excluídos os custos sócio-ambientais, sobretudo com relação à preservação da biodiversidade e exclusão das populações tradicionais.
As viagens à natureza com objetivos de contemplação da paisagem e de interação com as comunidades locais reúnem-se no conceito de ecoturismo, aqui tomado como sinônimo de turismo ecológico, definido pela União Européia/Embratur como:

 “O turismo desenvolvido em localidades com potencial ecológico, de forma conservacionista, procurando conciliar a exploração turística com o meio ambiente, harmonizando as ações com a natureza, bem como oferecer aos turistas um contato íntimo com os recursos naturais e culturais da região, buscando a formação de uma consciência ecológica”. (EMBRATUR/IBAMA, 1994).

O conceito de ecoturismo demonstra que nesse tipo de atividade devem estar presentes as componentes ecológica e social, portanto em franco desacordo com as estratégias governamentais de valoração e comercialização do espaço natural através da promoção desenfreada do turismo massificado. Convém aqui lembrar que o ecoturismo é uma viagem responsável dirigida às áreas naturais com o fim de conservar o meio ambiente e promover o bem estar da comunidade local.

Esse segmento é o que proporcionalmente apresenta maior crescimento nos fluxos turísticos, tendo como principais produtos as áreas ecologicamente protegidas.
Em virtude da divulgação massiva dos lugares exóticos e da natureza intocável, estima-se que 500 mil pessoas pratiquem o ecoturismo no Brasil, gerando emprego para 30 mil trabalhadores, por intermédio de cinco mil empresas e instituições privadas, segundo dados fornecidos pela Embratur.

Somadas as viagens realizadas por famílias, grupos informais e entradas individuais nos Parques Nacionais, o número de ecoturistas ultrapassa 10 milhões no Brasil. Por isso, o marketing que promove o lazer em unidades de conservação deve ser feito com cautela, para evitar a sobrecarga dos visitantes sobre os habitats naturais, mananciais hídricos e as populações tradicionais.

Com essa estratégia, apoiada pelo marketing ecoturistico massificado, as áreas protegidas que deveriam ser administradas pela União, passam sorrateiramente ao controle do setor privado. A proposta de abertura dos parques nacionais administrados pelo IBAMA e organizações não governamentais ao ecoturismo ganha contornos mais definidos com a cessão de áreas para exploração pela iniciativa privada.

O Programa de Uso Público e Ecoturismo em Parques Nacionais – Oportunidade de Negócios, em sua primeira fase, pretende atrair investimentos para adequar a infra-estrutura dos espaços visando a estimular o acesso público nos parques nacionais. Segundo essa proposta mercadológica, do IBAMA, as áreas protegidas representam, “por seus valores bio-sócio-culturais, verdadeiras escolas conservacionistas ao ar livre”.
 
Em outras palavras, é a privatização das unidades de conservação.

Uma comissão do Ministério do Meio Ambiente está realizando levantamentos em 16 parques nacionais que terão seus serviços e equipamentos terceirizados. Segundo essa avaliação, os parques nacionais de Brasília, Caparaó, Iguaçu, Chapada dos Veadeiros e outros, possuem diversos atrativos turísticos com valor agregado, principalmente aqueles ligados aos chamados esportes de aventura, como canoagem, alpinismo, espeleologia, ciclismo e montanhismo, além de serem propícios para caminhadas, passeios de barcos, pescarias, banhos de rios e observação de fauna.

Entre as unidades de conservação já licitadas estão os parques nacionais de Brasília (DF), Chapada dos Veadeiros (GO), Caparaó (MG) e Iguaçu (PR), agora classificados como de múltiplo uso pelo público, ou seja, podem ser explorados para atividades que vão desde passeios ecológicos até os esportes de aventura.

A gestão participativa encontra dificuldades desde o processo de criação das unidades de conservação, porque as comunidades locais são excluídas das fases iniciais e de implantação dos projetos. De acordo com o Programa de Monitoramento de Áreas Protegidas do Instituto Sócioambental, entre as 1.034 Unidades de Conservação existentes hoje no país, apenas 97 contam com Conselhos Gestores - instâncias previstas na gestão das UCs, que devem ser formadas de forma paritária por representantes da sociedade civil, do governo e da população local, dependendo da categoria da unidade de conservação.

Os principais problemas dos conselhos gestores são relativos à falta de meios de comunicação, à lentidão dos órgãos ambientais em repassar verbas para o funcionamento, implementação das decisões tomadas e o desinteresse dos chefes das UCs.

O método geográfico aplicado ao planejamento, manejo e gestão de unidades de conservação, tem contribuído significativamente à preservação de áreas protegidas e das populações tradicionais.

A título de ilustração, destacamos o projeto desenvolvido para implementação do Parque Ambiental da Usina São José, localizado na Zona da Mata Norte, no estado de Pernambuco.
Localizado no Município de Igarassu, o Parque Ambiental São José corresponde a uma área definida como Reserva Ecológica, fazendo parte da Área Piloto Reserva da Biosfera de Mata Atlântica – RBMA. A delimitação dessa Área Piloto deve-se à sua importância ecológica e histórica, sendo prioritária para implantação de projetos de conservação e de preservação ambiental.

Num total de 4.150 hectares de Reserva Legal, a usina destinou uma área de Mata Atlântica, com extensão de 150 hectares, para criação e implantação do Parque Ambiental, com o objetivo de reunir objetivos múltiplos de usos permitidos por lei, como a pesquisa científica, a educação ambiental e o turismo ecológico, associados ao objetivo maior, ou seja, a preservação dos bancos genéticos da fauna e flora e dos recursos hídricos.

Os procedimentos metodológicos que nortearam o Plano de Manejo da unidade de conservação fundamentaram-se na Teoria dos Sistemas de Bertalanffy (1973), proporcionando análise integrada dos componentes sistêmicos, a partir dos diagnósticos físico-biótico e sócio-econômico, necessários ao zoneamento ambiental e a proposta de plano de manejo (Seabra, 2001b).

Quanto aos níveis de interferência humana no meio ecológico, tomamos como referência à metodologia ecodinâmica de Tricart (op.cit.), que classifica o meio ambiente como instável, intergrade e estável. Nos meios estáveis foram adotadas medidas de preservação e implementação dos programas de pesquisa científica. Os meios intergrades e instáveis estão sendo reabilitados e integrados aos programas de infra-estrutura e equipamentos, visitação, educação ambiental e ecoturismo. Os trabalhadores da cana participaram do projeto nas fases de elaboração, implantação e atualmente atuam na orientação dos visitantes, monitoramento dos ecossistemas e controle dos processos erosivos.

O procedimento operacional incluiu inventário e classificação das espécies mais representativas da fauna e flora, controle de erosão, traçado e mapeamento de trilhas educativas, projetos de equipamentos para pesquisadores e visitantes, vias de acesso, circulação e estacionamento de veículos, porto de embarque às margens do lago, viveiros de espécies vegetais nativas  e áreas para solturas de animais da fauna silvestre.

O parque está sendo interligado às outras reservas de Mata Atlântica da Usina São José, através da implantação de corredores ecológicos, tendo como vias migratórias os rios, córregos e matas ciliares, garantindo a circulação e reprodução dos animais em seu habitat natural.

Nos últimos quatro anos, a administração da Usina São José vem tomando medidas no sentido de proteção da área com vigilância constante, evitando a caça e a retirada de madeira, introduzindo animais silvestres nativos, incentivando a pesquisa científica e permitindo visitas controladas.

Exemplos como este estão se multiplicando pelo País. Existem atualmente quase setecentas reservas particulares espalhadas por todos os estados brasileiros, totalizando uma área preservada de 520 mil hectares.

Pelo sim pelo não, até o momento, é o que está dando certo.

Referências Bibliográficas
BERTALANFFY, L. v. Teoria Geral dos Sistemas. (Trad. Francisco M. Guimarães). Petrólpolis: Vozes, 1973, 351 p.
BERTRAND, G.  Paysage et géographie   physique globale: esquisse méthodologique. Rev. Géog. Dês Pyrinées et du Sud-ouest (Tolouse), v. 39, n. 3, p. 249-72, 1968.
BRASIL. Sistema Nacional de Unidades de Conservação – SNUC. Lei Nº 9.985, de 18 de julho de 2000.
EMBRATUR/IBAMA. Diretrizes para uma Política Nacional de Ecoturismo. Brasília, 1994.
FOLADORI, G. Limites do desenvolvimento sustentável. Campinas: Editora Unicamp, 2001, 221 p.
LIMA e SILVA, P. P. et. al. Dicionário Brasileiro de Ciências Ambientais. Rio de Janeiro: Thex Editora, 2002, 251 p.
RICARDO, F. Terras indígenas e unidades de conservação: o desafio das sobreposições. São Paulo: Instituto Soçioambiental, 2004, 687 p.
SEABRA, G. F. Do garimpo aos ecos do turismo: o Parque Nacional da Chapada Diamantina. Tese de Doutorado. São Paulo: FFLCH / USP, 1998.
_____________. Fundamentos e Perspectivas da Geografia (2ª edição). João Pessoa: Editora UFPB, 1999, 148 p.
____________. Ecos do Turismo: o turismo ecológico em áreas protegidas. Campinas: Editora Papirus, 2001a, 95 p.
_____________. Pesquisa Científica: O método em questão. Brasília: Editora UnB, 2001b, 124 p.
TERBORGH, J. et al. (orgs). Tornando os parques eficientes: estratégias para a conservação da natureza nos trópicos. Curitiba: Fundação O Boticário / Editora UFPR, 2002.
TRICART, J. J. L. Ecodinâmica. Rio de Janeiro: IBGE/SUPREN, 1977, 91 p.
WILSON, E. O. Diversidade da vida. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.
www.socioambiental.org. Acesso em 15 de janeiro de 2005, às 08:30.
www.ibama.gov.br. Acesso em 23 de janeiro de 2005, às 17:15.


Prof. Dr. Giovanni de Farias Seabra é Doutor em Geografia Física, Pós-Doutor em Geologia Ambiental, Professor Adjunto da UFPB. gioseabra@yahoo.com.br. Conferência proferida no Concurso para Professor Titular da UFPB.

 

 

 

 


 


 
 

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