O turismo é uma das atividades que mais cresce em todo o mundo, porém, as áreas onde há maior crescimento são aquelas que mais investem em infra-estrutura e desenvolvimento inteligente e preocupado com todos os envolvidos na atividade. O artigo que segue irá mostrar as faces de um turismo bem e mal explorado.
Francisco Winter Silva, estudante do Curso Superior de Tecnologia em Gestão de Turismo, na Universidade Luterana do Brasil, em Canoas, Rio Grande do Sul.
O Desenvolvimento Responsável
Há algum tempo me questionaram algo muito interessante e de diferentes respostas: “O turismo traz o desenvolvimento ou é o desenvolvimento que traz o turismo?”.
A atividade turística, apesar de ser caracterizada como serviço, possui uma dimensão muito maior do que aquela vista pelos turistas que chegam anualmente em milhares de destinos, com seus guias e suas companhias turísticas. Envolve desde o espaço físico, ou seja, onde o hóspede dorme, se alimenta ou visita, até as pessoas, sua economia, sua política, e uma série de outros componentes do produto turístico. Assim como no esporte o turismo possui diferentes alternativas para acontecer. Há esportes na água, no ar, no gelo, e existe turismo de lazer, de aventura, de esportes radicais, de eventos e uma série de outras possibilidades. Porém muitas vezes o interesse dos turistas, assim como dos patrocinadores, está acima do que a localidade ou o atleta podem oferecer, é a partir daí que o turismo se torna irresponsável e atrasa o desenvolvimento.
Não há como negar que o turismo movimenta a economia, gera renda, divulga a cultura local e proporciona trabalho a muitos, porém, pode destruir um ecossistema local, desapropriar famílias, gerar instabilidade econômica e desemprego. Parece difícil gerar o desemprego já que o turismo oferta vagas a tantos setores da economia, não? Não.
Vejamos um exemplo muito simples:
Uma praia do litoral do Rio Grande do Sul, até então inexplorada e habitada por uma comunidade muito pequena de pescadores, é divulgada na televisão durante o ano. Então muitos turistas da capital, do interior e da serra vão ao encontro deste paraíso. O lugar não suporta tantos visitantes, porém os moradores estão lucrando muito ao oferecer acomodações em suas casas e oferecendo seu pescado em troca do dinheiro. Esta praia, no ano seguinte, já é um dos locais mais visados, porém, é muito difícil conseguir uma reserva na casa dos pescadores e estes já não têm mais sua privacidade. Pois neste momento surge uma grande construtora de edifícios da capital, compra uma quantidade muito grande de terrenos e começa um empreendimento – um hotel com 150 quartos, piscina, quadra de esportes, restaurante internacional, sauna e propõe um novo estilo de lazer no litoral gaúcho, ao estilo Punta del Este ao público A e B jovem.
Outras empresas compram seus terrenos na mesma praia, começam então a construir condomínios de casas luxuosas, bares, clubes noturnos, shoppings entre outros atrativos. Como se vê, a família de pescadores já se mudou há tempos, mesmo nunca tendo saído dali anteriormente. E os empregados das construtoras, que eram tantos para construir tantos empreendimentos, que ganharam tanto dinheiro neste período curto, onde estão? Desempregados. Isto porque o desenvolvimento não planejado e a construção civil, já não têm tanto valor. Surgem diversas barraquinhas na beira da praia e camelôs, muitos deles empregados das grandes construtoras que se mudaram para a localidade em busca de trabalho e agora buscam uma maneira de sobreviver. Este é um exemplo muito simples de como o turismo irresponsável pode ser destrutivo para uma localidade, afinal a praia já não é mais a mesma, existem condomínios, bares, prédios e muito lixo, acabando com o visual tão paradisíaco que esta possuía.
Talvez este desenvolvimento não fosse tão mal planejado e nem tão rápido, porém o exemplo choca. Algo parecido aconteceu muito próximo a Porto Alegre, em Itapuã, e trata-se da Reserva Ecológica de Itapuã. Famílias foram desabrigadas para a realização da reserva, verbas para investimentos foram conseguidas e desenvolvimento para a localidade foi previsto. As indenizações não foram pagas, as verbas não foram investidas e o desenvolvimento não chegou e o que se vê hoje é um parque mal sinalizado, com estradas em péssimo estado e de difícil acesso, e sem infra-estrutura, porém a paisagem é encantadora. As comunidades que ali residiam foram obrigadas a deixar suas terras e pouco se pensou no que fariam para se sustentar, isto aconteceu em nome da ecologia e do turismo, mas acredito que o ecoturismo se preocupa em preservar a ecologia e não abandoná-la como algo a não ser admirado.
Em outros destinos o turismo funciona e com êxito. Gramado e Canela são exemplos de turismo bem sucedido. Gramado, localizado na serra gaúcha, não tem um inverno tão rigoroso quanto o de São Joaquim – Santa Catarina, que anualmente oferece neve para os visitantes por conta da natureza. Nossa serra não é tão próxima do Paraná e São Paulo, porém, é muito refinada e oferece diversas opções inteligentes de divertimento, além disto, a cidade se desenvolveu juntamente com o turismo e hoje promove um Festival Internacional de Cinema e diversos eventos de grande porte, talvez eventos mais interessantes dos que o que a capital recebe.
Com isso, não pode haver turismo sem o desenvolvimento da localidade, assim como da melhoria da infra-estrutura para o turista e para a comunidade receptora. O desenvolvimento e o turismo se completam, pois há áreas que se desenvolvem sem o turismo e áreas em que há o turismo mesmo sem uma grande infra-estrutura, são casos em que a proposta é justamente esta. A atividade turística pode ser muito benéfica, se explorada com planejamento.