Introdução
O presente estudo tem a intenção de
discutir e refletir sobre o mercado de cruzeiros mundial e de como este mercado
e sua demanda poderiam ser s bem aproveitados no Brasil. O trabalho também
esboça a tentativa de promover a inserção de regiões e localidades sem destaque
no cenário turístico através de um melhor aproveitamento de recursos hídricos
(hidrovias e rios navegáveis) utilizando como elo entre elas os cruzeiros
marítimos e fluviais, criando assim roteiros integrados.
Mercado
dos cruzeiros
O conceito atual de cruzeiros foi lançado por Ted
Ariston, fundador da Carnival Cruise Lines quando adquiriu o navio Mardi Gras na
década de setenta e o modificou em classe única, com a idéia de transformar um
cruzeiro marítimo em férias com vinte e quatro horas de diversão. Eram chamados
de The Fun Ships.
Hoje, os navios de cruzeiros são considerados
verdadeiros resorts flutuantes reunindo em um só espaço: bons restaurantes,
serviço de transporte, lazer, boas acomodações, serviço, lojas, e conforto com a
possibilidade de mudar de paisagem.
As viagens de cruzeiros marítimos no
mundo estão em pleno crescimento, em média de 10% ao ano, movimentam bilhões de
dólares, transportam aproximadamente 10 milhões de turistas e utilizam mais de
200 navios. Investindo neste mercado promissor, as companhias de cruzeiro têm
segmentado suas viagens quanto às condições sócio-econômicas, destino de
viagens, faixa etária, ao estado civil, ao tipo de navio, a duração de viagens,
ao tema (xadrez, fitness, culinária, música) e a ocasiões especiais como
casamentos, formaturas, convenções, adaptando ao perfil do
cruzeirista.
Hoje, as principais empresas de cruzeiros compõem a ICCL[1]
(International Council of Cruise Lines) que participa da regulamentação e das
políticas de desenvolvimento e busca promover o desenvolvimento dos cruzeiros de
forma segura e saudável. É a ICCL que também elabora estudos econômicos sobre
este segmento mostrando benefícios e impactos econômicos, atividades portuárias
e geração de empregos com os cruzeiros.
Fazem parte da ICCL as companhias
Carnival Cruise Lines, Celebrity Cruises, Costa Cruise Line, Crystal Cruises,
Cunard Line Limited, Disney Cruise Line, Holland América Line, Norwegian Cruise
Line, Orient Lines, Princess Cruises, Radisson Seven Seas Cruises, Royal
Caribbean International, Royal Plympia Cruises, Seabourn Cruises Line e Windstar
Cruises.
Figura 01: Mapa do México, da América Central e do
Caribe
Atualmente as rotas
concentram-se entre os trópicos de Câncer e Capricórnio, tendo como principal
destino as ilhas do Caribe, seja pelo folclore, seja pelas boas praias, mas
principalmente, pela proximidade do maior pólo emissivo de turistas: os Estados
Unidos. No total de passageiros que realizam cruzeiros os americanos representam
70%, seguidos pelos europeus com 20% e os 10% divididos entre as outras
nacionalidades de passageiros. Geralmente estão na faixa dos 50 anos, 47% que
viajam pela 1ª vez estão entre 25 a 39 anos e 78% são casados.
Os
cruzeiros no Brasil
Aberto a cerca de nove anos para navios
estrangeiros, o mercado brasileiro de cruzeiros marítimos tem apresentado
aumentos significativos no número de embarques e de embarcações na costa do
país. No período de 1997/1998 foram 154 escalas e em 99/00 foram 323 escalas. O
número de passageiros subiu de 15.000 em 1995 para 90.000 na temporada de verão
2000/2001.
Estes aumentos são conseqüência, principalmente, da alteração
da Emenda Constitucional nº 7 em 15 de agosto 1995 que trouxe um grande avanço
para o turismo brasileiro por que passou a permitir que navios de bandeiras
estrangeiras embarcassem e desembarcassem passageiros nos portos e entre os
portos brasileiros.
Para as companhias de cruzeiros esta abertura
do mercado brasileiro trouxe duas grandes vantagens: primeiro a oportunidade de
explorar um mercado novo; segundo o aproveitamento de navios ociosos no inverno
do hemisfério norte, acarretando prejuízos diários de até 100 mil dólares. Estas
vantagens atraíram ao país sete navios internacionais na temporada 2000/2001 e
incluíram o Brasil no itinerário de passagem pelo hemisfério sul no verão de
2001/2002.
Tabela 01: Port Activity
Apesar da comparação
entre o mercado brasileiro e os demais mercados (americano e europeu) não ser
recomendável, uma vez que trata de pólos emissores muito distintos (poder
aquisitivo, hábito, distâncias, etc), vale ressaltar alguns dados numéricos
encontrados na Tabela 01:
A tabela 01 refere-se ao movimento de
passageiros nos portos do mundo de acordo com a ACCL (International Council of
Cruises Line). Considerando-se o número de embarques no mundo em 2002,
aproximadamente 9.220.000, cerca de 6.500.000, ou seja, mais de setenta por
cento, foram nos Estados Unidos e 4.413.000 concentraram-se só na
Flórida.
Nesta referência, o movimento de embarque nos portos brasileiros
não aparece: nem como destino nem como emissor. Hoje, no total de entrada de
turistas no país o acesso marítimo representa apenas 2% e o fluvial 1%. Apesar
de apresentar incremento de 30% no volume de passageiros (comparativa entre
temporada de 2000/2001 e 2001/2002) e de fatores que otimizam as previsões como
baixo custo do produto e exposição da mídia, para que haja a projeção do Brasil
neste cenário de cruzeiros é necessário que se pense antes em estratégias de
distribuição, divulgação (como sendo um produto para a massa), planejamento,
combinação de destinos, melhoria dos portos (redução do preço das operações
portuárias, infra-estrutura adequada), receptivos, pontos de apoio e facilidades
de acesso (combinação com outros meios de transporte como aviões, helicópteros,
ônibus, etc).
A interiorização do turismo e os cruzeiros
fluviais
A preocupação com a interiorização e o desenvolvimento
do centro do país é recente. O Brasil, durante três séculos consecutivos teve um
povoamento predominantemente litorâneo. Em meados do século XVIII, o processo de
interiorização foi ampliado graças à mineração de ouro e pedras preciosas
chegando a estado que hoje são Goiás, Mato Grosso, Bahia e Minas Gerais. Somente
no pós-guerra que os investimentos tornam-se intensivo em infra-estrutura e a
preocupação com a ocupação do território brasileiro torna-se evidente com a
construção de Brasília e sua inauguração em 1960.
Com o turismo não foi
diferente: durante muitos anos, a praia foi o principal foco tanto de
empresários, como de turistas e de governos no país. No entanto, o surgimento do
ecoturismo e seu significativo crescimento (20% ao ano no país, segundo SEBRAE)
despertaram interesse para outras regiões no interior do país como Bonito e
Pantanal no Mato Grosso do Sul, a região Amazônica, Brotas no interior do estado
de São Paulo além do turismo cultural e histórico em Minas e gastronômico na
Serra Gaúcha.
O carnaval pernambucano, por exemplo, ganhou um novo
roteiro com a inclusão de um município Triunfo, que se localiza não no mar, mas
na região de sertão do Pajeú. A cidade criou um “folgueto” exclusivo: os
caretas. A idéia é ficar irreconhecível mesmo para os amigos usando máscaras e
placas com dizeres de pára-choques de caminhão nas costas. Além da festa, o
município tem belezas naturais como cachoeiras, matas e particularidades
gastronômicas.
Estas questões vão ao encontro da proposta do Ministério
do Turismo de “diversificar os produtos turísticos contemplando nossa
pluralidade cultural e diferença regional” e de “diminuir as desigualdades
regionais, estruturando produtos em todos os estados brasileiros” (PLANO
NACIONAL DO TURISMO, 2003).
Outra questão relevante é: por que não
combinar destinos costeiros com cruzeiros fluviais? Ou até mesmo explorar melhor
os rios navegáveis proporcionando a interiorização e a integração deste turismo
do país?
Ao se analisar as atividades portuárias da Flórida (4.413.000),
a proximidade do Caribe e a facilidade geográfica e hidrográfica do Brasil
nota-se que, se bem trabalhado, é possível fazer uma combinação destes destinos
com o Brasil, seja pela costa brasileira seja através de cruzeiros fluviais pela
Amazônia. É o que já fazem seis empresas de cruzeiros: Cunard Line, Orient
Lines, Princess Cruises, Radisson Seven Seas Cruises e Seabourn Cruises Line que
combinam outros destinos com Amazônia em roteiro que duram de 7 a 22 dias. Em
2001 foram 24 transatlânticos e 14.000 passageiros nesta região.
A
exemplo do que tem acontecido na Amazônia através de empresas estrangeiras e o
que acontece no Vale do Rio São Francisco ainda que modestamente, e no Pantanal
na cidade de Corumbá, além de algumas localidades isoladamente, seria possível
desenvolver o turismo no interior do país através de combinação de destinos e de
canais de distribuição que facilitassem a chegada do turista a certas regiões do
Brasil. Poder se-ia também utilizar os rios navegáveis e as hidrovias para
fomentar o desenvolvimento do turismo no país através da interiorização
utilizando-se o transporte fluvial.
Considerações
FinaisO mercado de cruzeiros no mundo tem crescido em média 10%
ao ano e tem trazido grandes ganhos financeiros tanto para as empresas
“cruzeiristas” quanto para destinos, como é o caso do Caribe, que teve a injeção
de 929,2 milhões de dólares na economia local.
No Brasil, com a alteração
da Emenda Constitucional n° 7 este segmento tem crescido paulatinamente, todavia
sem alcançar projeções mundiais. Ainda que não tenha sido feito uma pesquisa,
poderíamos supor que as dificuldades para ganhar este destaque estariam
concentradas no hábito do brasileiro, ou na falta dele, de viajar de navio e do
“mito” de considera-lo elitizado.Soma-se ainda a necessidade de investimento em
infra-estrutura de portos, receptivos, planejamento e criação de rotas
variadas.
Para pensar no desenvolvimento do turismo nacional e na
estruturação e diversificação da oferta turística que constam no Plano Nacional
do Turismo traçado pelo Ministério do Turismo seria interessante considerar
combinações dos destinos destes cruzeiros (aproveitando a alta demanda para
Caribe) e analisar a melhor utilização das hidrovias e os rios navegáveis do
país inclusive para inserir regiões pouco aproveitadas e desenvolvidas
turisticamente, principalmente no interior do Brasil, criando roteiros
integrados entre elas.
Blibliografia
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Ricardo. Cruzeiros marítimos. Barueri, SP: Manole, 2002.
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Bacia do
Prata: acesso em 23 Mar. 2004
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BRITO, Tema Medeiros. Cruzeiros marítimos: hotéis flutuantes e mão-de-obra.
Boletim de turismo e administração hoteleira. São Paulo: 2002.
CLIA disponível em http://www.cruising.org > acesso em: 18 de
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Foto Queen
Elizabeth 2 acesso em: 16 de Mai. 2004
Informações
sobre barco-hotel acesso em: 23 de mar. 2004
Interiorização:
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Membros ICCL: acesso em:
16 mai. 2004
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Rotas: acesso
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Transporte
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Triunfo
WALKER,
John R. Introdução à hospitalidade. Barueri: Manole, 2002.
[1] Quando no texto aparecer a sigla ICCL lê-se International Council of Cruise
Line.