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Cruzeiros marítimos e fluviais no Brasil: novas oportunidades à vista
11/7/2005 - Julia Chacha

O mercado de cruzeiros no mundo tem crescido em média 10% ao ano e tem trazido grandes ganhos financeiros tanto para as empresas “cruzeiristas” quanto para destinos, como é o caso do Caribe, que teve a injeção de 929,2 milhões de dólares na economia local. No Brasil, com a alteração da Emenda Constitucional n° 7 este segmento tem crescido paulatinamente, todavia sem alcançar projeções mundiais.



Introdução

O presente estudo tem a intenção de discutir e refletir sobre o mercado de cruzeiros mundial e de como este mercado e sua demanda poderiam ser s bem aproveitados no Brasil. O trabalho também esboça a tentativa de promover a inserção de regiões e localidades sem destaque no cenário turístico através de um melhor aproveitamento de recursos hídricos (hidrovias e rios navegáveis) utilizando como elo entre elas os cruzeiros marítimos e fluviais, criando assim roteiros integrados.

Mercado dos cruzeiros

O conceito atual de cruzeiros foi lançado por Ted Ariston, fundador da Carnival Cruise Lines quando adquiriu o navio Mardi Gras na década de setenta e o modificou em classe única, com a idéia de transformar um cruzeiro marítimo em férias com vinte e quatro horas de diversão. Eram chamados de The Fun Ships.

Hoje, os navios de cruzeiros são considerados verdadeiros resorts flutuantes reunindo em um só espaço: bons restaurantes, serviço de transporte, lazer, boas acomodações, serviço, lojas, e conforto com a possibilidade de mudar de paisagem.

As viagens de cruzeiros marítimos no mundo estão em pleno crescimento, em média de 10% ao ano, movimentam bilhões de dólares, transportam aproximadamente 10 milhões de turistas e utilizam mais de 200 navios. Investindo neste mercado promissor, as companhias de cruzeiro têm segmentado suas viagens quanto às condições sócio-econômicas, destino de viagens, faixa etária, ao estado civil, ao tipo de navio, a duração de viagens, ao tema (xadrez, fitness, culinária, música) e a ocasiões especiais como casamentos, formaturas, convenções, adaptando ao perfil do cruzeirista.

Hoje, as principais empresas de cruzeiros compõem a ICCL[1] (International Council of Cruise Lines) que participa da regulamentação e das políticas de desenvolvimento e busca promover o desenvolvimento dos cruzeiros de forma segura e saudável. É a ICCL que também elabora estudos econômicos sobre este segmento mostrando benefícios e impactos econômicos, atividades portuárias e geração de empregos com os cruzeiros.

Fazem parte da ICCL as companhias Carnival Cruise Lines, Celebrity Cruises, Costa Cruise Line, Crystal Cruises, Cunard Line Limited, Disney Cruise Line, Holland América Line, Norwegian Cruise Line, Orient Lines, Princess Cruises, Radisson Seven Seas Cruises, Royal Caribbean International, Royal Plympia Cruises, Seabourn Cruises Line e Windstar Cruises.

Figura 01: Mapa do México, da América Central e do Caribe

Atualmente as rotas concentram-se entre os trópicos de Câncer e Capricórnio, tendo como principal destino as ilhas do Caribe, seja pelo folclore, seja pelas boas praias, mas principalmente, pela proximidade do maior pólo emissivo de turistas: os Estados Unidos. No total de passageiros que realizam cruzeiros os americanos representam 70%, seguidos pelos europeus com 20% e os 10% divididos entre as outras nacionalidades de passageiros. Geralmente estão na faixa dos 50 anos, 47% que viajam pela 1ª vez estão entre 25 a 39 anos e 78% são casados.

Os cruzeiros no Brasil

Aberto a cerca de nove anos para navios estrangeiros, o mercado brasileiro de cruzeiros marítimos tem apresentado aumentos significativos no número de embarques e de embarcações na costa do país. No período de 1997/1998 foram 154 escalas e em 99/00 foram 323 escalas. O número de passageiros subiu de 15.000 em 1995 para 90.000 na temporada de verão 2000/2001.

Estes aumentos são conseqüência, principalmente, da alteração da Emenda Constitucional nº 7 em 15 de agosto 1995 que trouxe um grande avanço para o turismo brasileiro por que passou a permitir que navios de bandeiras estrangeiras embarcassem e desembarcassem passageiros nos portos e entre os portos brasileiros. 

Para as companhias de cruzeiros esta abertura do mercado brasileiro trouxe duas grandes vantagens: primeiro a oportunidade de explorar um mercado novo; segundo o aproveitamento de navios ociosos no inverno do hemisfério norte, acarretando prejuízos diários de até 100 mil dólares. Estas vantagens atraíram ao país sete navios internacionais na temporada 2000/2001 e incluíram o Brasil no itinerário de passagem pelo hemisfério sul no verão de 2001/2002.

Tabela 01: Port Activity
Apesar da comparação entre o mercado brasileiro e os demais mercados (americano e europeu) não ser recomendável, uma vez que trata de pólos emissores muito distintos (poder aquisitivo, hábito, distâncias, etc), vale ressaltar alguns dados numéricos encontrados na Tabela 01:

A tabela 01 refere-se ao movimento de passageiros nos portos do mundo de acordo com a ACCL (International Council of Cruises Line). Considerando-se o número de embarques no mundo em 2002, aproximadamente 9.220.000, cerca de 6.500.000, ou seja, mais de setenta por cento, foram nos Estados Unidos e 4.413.000 concentraram-se só na Flórida.

Nesta referência, o movimento de embarque nos portos brasileiros não aparece: nem como destino nem como emissor. Hoje, no total de entrada de turistas no país o acesso marítimo representa apenas 2% e o fluvial 1%. Apesar de apresentar incremento de 30% no volume de passageiros (comparativa entre temporada de 2000/2001 e 2001/2002) e de fatores que otimizam as previsões como baixo custo do produto e exposição da mídia, para que haja a projeção do Brasil neste cenário de cruzeiros é necessário que se pense antes em estratégias de distribuição, divulgação (como sendo um produto para a massa), planejamento, combinação de destinos, melhoria dos portos (redução do preço das operações portuárias, infra-estrutura adequada), receptivos, pontos de apoio e facilidades de acesso (combinação com outros meios de transporte como aviões, helicópteros, ônibus, etc).

A interiorização do turismo e os cruzeiros fluviais

A preocupação com a interiorização e o desenvolvimento do centro do país é recente. O Brasil, durante três séculos consecutivos teve um povoamento predominantemente litorâneo. Em meados do século XVIII, o processo de interiorização foi ampliado graças à mineração de ouro e pedras preciosas chegando a estado que hoje são Goiás, Mato Grosso, Bahia e Minas Gerais. Somente no pós-guerra que os investimentos tornam-se intensivo em infra-estrutura e a preocupação com a ocupação do território brasileiro torna-se evidente com a construção de Brasília e sua inauguração em 1960.

Com o turismo não foi diferente: durante muitos anos, a praia foi o principal foco tanto de empresários, como de turistas e de governos no país. No entanto, o surgimento do ecoturismo e seu significativo crescimento (20% ao ano no país, segundo SEBRAE) despertaram interesse para outras regiões no interior do país como Bonito e Pantanal no Mato Grosso do Sul, a região Amazônica, Brotas no interior do estado de São Paulo além do turismo cultural e histórico em Minas e gastronômico na Serra Gaúcha.

O carnaval pernambucano, por exemplo, ganhou um novo roteiro com a inclusão de um município Triunfo, que se localiza não no mar, mas na região de sertão do Pajeú. A cidade criou um “folgueto” exclusivo: os caretas. A idéia é ficar irreconhecível mesmo para os amigos usando máscaras e placas com dizeres de pára-choques de caminhão nas costas. Além da festa, o município tem belezas naturais como cachoeiras, matas e particularidades gastronômicas.

Estas questões vão ao encontro da proposta do Ministério do Turismo de “diversificar os produtos turísticos contemplando nossa pluralidade cultural e diferença regional” e de “diminuir as desigualdades regionais, estruturando produtos em todos os estados brasileiros” (PLANO NACIONAL DO TURISMO, 2003).

Outra questão relevante é: por que não combinar destinos costeiros com cruzeiros fluviais? Ou até mesmo explorar melhor os rios navegáveis proporcionando a interiorização e a integração deste turismo do país?

Ao se analisar as atividades portuárias da Flórida (4.413.000), a proximidade do Caribe e a facilidade geográfica e hidrográfica do Brasil nota-se que, se bem trabalhado, é possível fazer uma combinação destes destinos com o Brasil, seja pela costa brasileira seja através de cruzeiros fluviais pela Amazônia. É o que já fazem seis empresas de cruzeiros: Cunard Line, Orient Lines, Princess Cruises, Radisson Seven Seas Cruises e Seabourn Cruises Line que combinam outros destinos com Amazônia em roteiro que duram de 7 a 22 dias. Em 2001 foram 24 transatlânticos e 14.000 passageiros nesta região.

A exemplo do que tem acontecido na Amazônia através de empresas estrangeiras e o que acontece no Vale do Rio São Francisco ainda que modestamente, e no Pantanal na cidade de Corumbá, além de algumas localidades isoladamente, seria possível desenvolver o turismo no interior do país através de combinação de destinos e de canais de distribuição que facilitassem a chegada do turista a certas regiões do Brasil. Poder se-ia também utilizar os rios navegáveis e as hidrovias para fomentar o desenvolvimento do turismo no país através da interiorização utilizando-se o transporte fluvial.

Considerações Finais

O mercado de cruzeiros no mundo tem crescido em média 10% ao ano e tem trazido grandes ganhos financeiros tanto para as empresas “cruzeiristas” quanto para destinos, como é o caso do Caribe, que teve a injeção de 929,2 milhões de dólares na economia local.

No Brasil, com a alteração da Emenda Constitucional n° 7 este segmento tem crescido paulatinamente, todavia sem alcançar projeções mundiais. Ainda que não tenha sido feito uma pesquisa, poderíamos supor que as dificuldades para ganhar este destaque estariam concentradas no hábito do brasileiro, ou na falta dele, de viajar de navio e do “mito” de considera-lo elitizado.Soma-se ainda a necessidade de investimento em infra-estrutura de portos, receptivos, planejamento e criação de rotas variadas.

Para pensar no desenvolvimento do turismo nacional e na estruturação e diversificação da oferta turística que constam no Plano Nacional do Turismo traçado pelo Ministério do Turismo seria interessante considerar combinações dos destinos destes cruzeiros (aproveitando a alta demanda para Caribe) e analisar a melhor utilização das hidrovias e os rios navegáveis do país inclusive para inserir regiões pouco aproveitadas e desenvolvidas turisticamente, principalmente no interior do Brasil, criando roteiros integrados entre elas.

Blibliografia

AMARAL, Ricardo. Cruzeiros marítimos. Barueri, SP: Manole, 2002.

Bacia Amazônica: acesso em: 23 de mar 2004

Bacia do Prata: acesso em 23 Mar. 2004

BRASILTURIS. Navios de cruzeiros no Brasil e no mundo. Dezembro, 1ª    Quinzena de 2001.

BRITO, Tema Medeiros. Cruzeiros marítimos: hotéis flutuantes e mão-de-obra. Boletim de turismo e administração hoteleira. São Paulo: 2002.

CLIA disponível em http://www.cruising.org > acesso em: 18 de Maio de 2004

Foto Queen Elizabeth 2 acesso em: 16 de Mai. 2004

Informações sobre barco-hotel  acesso em: 23 de mar. 2004

Interiorização: acesso em:31. Mai. 2004

Mapa do Caribe Disponível em acesso em 19 Mai. 2004.

Mapa hidrográfico: acesso em: 16. mai. 2004.

Membros ICCL: acesso em: 16 mai. 2004

MILL, Robert C. Resorts: administração e operação. Porto Alegre: Bookmam, 2003.

MINISTÈRIO DO TURISMO. Plano nacional do turismo. Brasília: 2003.

PAGE, Stephen. Transporte e turismo. Porto Alegre: Bookmam, 2001.

PALHARES, Guilherme L. Transportes turísticos. São Paulo: Aleph, 2002.

Rio São Francisco disponível em <> acesso em:29. mai. 2004.

Rotas: acesso em 16. mai. 2004

Transporte fluvial:   acesso em: 29 de Mar. 2004.

Triunfo

WALKER, John R. Introdução à hospitalidade. Barueri: Manole, 2002.


[1] Quando no texto aparecer a sigla ICCL lê-se International Council of Cruise Line.

 
 

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